Das tantas mortes

“…Depois de tanto verbo a pessoa morre. A pessoa morre”.
(Karina Buhr)

pedra-na-agua

Coragem, para as pequenas mortes. Pequenas mortes que antecedem a grande passagem do ego. Pequenos lutos de grandes mortes. Grandes lutos de pequenas mortes. A gente morre. Depois de tanta vida, depois de tanta aspiração, depois de tanto amor, depois de tanto verbo, depois de tanto gozo, depois de tanta dor, como diz Karina Buhr lá em cima, a pessoa morre.

E a gente morre. Viver é estar permeado de morte, com os olhos assombrados pelo escape do tempo, e de nós mesmos. Morrer assusta, mas é bonito. É fluxo de vida, é vida de rio cheio, é vida que vai e não volta, é vida pulsante de tantos tempos que ainda virão. É possibilidade de reinventar-se, de se deixar ir, de deixar ir o que não podemos segurar com as mãos, de ser nada diante do segredo maior de estar vivo. E de ser tudo que se pode ser neste respiro de tempo presente.

A sinceridade – nua e crua, é que a gente morre. E aceitar a morte é aceitar que somos finitos neste instante em que tudo é. Em que os olhos veem e a gente existe. Em que a gente já não é mais, e nunca mais poderá ser.

E tem tanta gente tentando (em vão) segurar a areia que escorre incontida para o outro lado da ampulheta. Tentando se segurar nas certezas expiradas, que já evaporam no ar. Tentando se proteger com bens e seguranças materiais, cercar-se da materialidade e do conforto possível diante da sensação nada segura de estar vivo.

E de nada adianta tanta concretude, não conseguimos conter o tempo. A gente morre. E é melhor morrer vivendo, seguir nadando na correnteza, do que morrer cercado de concretos armados e vazios de ar viciado. De vazios de tudo que podíamos ser, e não fomos. De tudo que não experimentamos, dos vastos mares que não nadamos dentro de nós mesmos. E dentro do mundo, do outro, dos outros, das matas e das florestas verdes ou cinzas. E de tudo não seremos ali, no morto-vivo que não morre e não vive. Que está pela metade se costurando com linha que não junta os pedaços desconexos. Tem tanta vida lá fora. Vida que só tocamos quando paramos de nos proteger do fluxo de ser. E de ser qualquer coisa, qualquer coisa que surge quando paramos de nos proteger das nossas inevitáveis mortes.

E enquanto escrevo digo isso a mim mesma, aos meus próprios medos e inseguranças de vida e morte, bradando aos ventos que me levem.

É verdade: viver dói. Nascer dói, e morrer pode ser alívio. Tem dor, e na dor tem matéria prima do que somos feitos. Tem gozo que antecede a felicidade de estar vivo. Felicidade que não precisa de nada a não ser o pulso. Que se sabe fluída e sempre presente nos intervalos das marés. Que sabe da dor da impermanência. E da beleza das ondas que levam e trazem substâncias vitais. E a gente se refaz ali na beira do mar, que lambe nossa pernas e apaga as marcas na areia. Que molda novos e impossíveis desenhos. Até o último respiro de olhos abertos.

E não adianta se esconder do mar, porque a gente morre. Porque viver é mutabilidade. Caem as unhas, os dentes, os cabelos mudam, a pele enruga, as nossas células gritam e a gente muda por dentro. As sensações mudam, os desejos mudam, a gente morre e renasce em diferentes instâncias de nós mesmos. Até que um dia a gente se desfaz em poeira cósmica e beija as estrelas. Desculpem-me mais uma vez: de nada adianta nosso ego. Ele vira poeira.

E nesse nosso falso mundo de seguranças jurídicas e investimentos no que dá lucro, de pequenezas materiais e mesquinharias aos montes, só me resta rasgar os rótulos e tentar dissipar o medo. E que a gente seja. E viva com sede, biscateando impossíveis desejos e vivências, até a última gota.

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