E se resistir for um chocolate amargo?

Existe um tempo da delicadeza, disse o poeta. Acho até que foi o Chico. Buarque. Mas existe esse tempo, de hoje, onde a delicadeza deu espaço e lugar para urgências desmedidas e por uma profunda incapacidade de tolerância. Se é verdade que esses novos – e não tão novos – espaços pelas redes criam vida, criam laços, novas ideias, intercâmbios, também é mais que verdade que tudo, mas tudo tudo, ganhou a dimensão do já. Ontem é infinitamente distante…

 Muro Resistir

O que me faz escrever nesse espaço biscate, das mais prazerosas cousas que há, é o diálogo, o debate, a empatia, a libertinagem e o libertário. E há o doce exercício do sonhar e o outro exercício, amargo, o de resistir. Aqui nesta casa, que é boteco, varanda, chinelo, colchão d´água, chicotinho, divã, sala de aula, mancebo, a gente pode exercitar nossas lentes de ver o mundo. E não dá para fazer isso com tanta pressa, uma pressa que nos é imposta por alguém que encontra no relógio a resposta pronta para tudo, uma exigência de mercado.

Ser solidário é requerimento de essência. Ter empatia. Se colocar no lugar do outro. Mas isso não quer dizer sem rusgas, sem desavenças, sem incompreensões, sem dúvidas. Tudo que é certeza incomoda, a princípio, nossos amores – e desamores. Precisamos recuperar o tempo, este tempo.

Estamos morrendo porque não conseguimos tratar com seriedade temas como o aborto, a violência, o racismo, questões de gênero, a pobreza e o machismo na esfera pública, na política, no mundo. A seriedade pressupõe procedimento, escutar, ouvir, entender, depreender e milhares de verbos que não se resolvem na base de tacape ou de um “pré, conceito”.

Mas o alerta é outro. O alerta é que a pressa do relógio é absurdamente preconceituosa, preconcebida, porque a decisão é tomada com base naquilo que arraigado, sem discussão, a saída aparentemente mais fácil. E que é urgente, aí sim, que saiamos desta casinha. A urgência, a que não é a desmedida, é que necessitamos de outras soluções, outras percepções, outros caminhos.

 Sonho Impossível - Flor

Talvez isso tudo sirva só de amuleto ou consolo. Porque estamos resistindo, resistindo, resistindo – e nossa impotência tem sido muito cruel conosco, com nossas reflexões, com nossos desejos, nossa disposição. Resistir é absolutamente necessário, sabemos. Mas resistir é calma, que do contrário esta pressa nos engolirá, como vem engolindo a tudo. O nada, do “História sem fim”.

O chocolate amargo sabe ser delicioso. Resistamos, pois.

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