Henrietta, Gerda, Agatha: faces e imagens

Quem me conhece sabe que eu (re)leio Agatha Christie em tempos de crise. Proteção e aconchego. Livros com final. Reconfortantes. Familiares.

Tem uns que eu reli mais vezes, claro: já falei de um deles aqui. E quando digo “livros”, na verdade são personagens: que eu já conheço, a quem já fui apresentada e que reencontro, feliz, a cada passagem-leitura. Aqui, são duas as personagens que me interessam, que formam um eixo: as duas mulheres do médico e pesquisador John Christow em “A Mansão Hollow”. Gerda, a esposa; Henrietta, a amante. As duas são mesmo um par que se complementa: uma é o avesso da outra e uma não existiria sem seu avesso.

Gerda Christow é, talvez, a personagem mais fascinante: no livro, ela é apresentada quando está numa dúvida cruel. Está na hora do almoço, John ainda não chegou do consultório, o rosbife já está na mesa e Gerda, sentada, angustia-se: o que fazer? Mandar o rosbife de volta para a cozinha para que não esfrie? Mas John é tão impaciente, ele vai reclamar se o rosbife não estiver na mesa quando chegar. Deixá-lo ali? Se ele se atrasar mais, o molho vai esfriar, a comida vai ficar ruim… Gerda se tortura durante alguns minutos com as alternativas. Para o leitor, fica evidente: não tem saída. Qualquer escolha será a errada. Porque é Gerda. Lenta, indecisa, pesada. Muito aquém do que se esperaria de uma mulher para o brilhante e bonito John Christow. Isso, inclusive, na sua própria opinião. Ela é imensamente grata a John por ter casado com ela, embora não entenda o motivo disso ter acontecido. E, por gratidão, aceita o mau humor, a rispidez, a impaciência dele. Ela é a errada, por necessidade. Ela é Gerda. O rosbife deixa claro.

Não falei de amor, apesar do livro fazê-lo: esse é meu jeito de contar essa história. Ela pode pensar que é amor, sem dúvida pensa: mas será? Essa aceitação embevecida de que o “ser superior” dignou-se a olhar para ela, condescendeu em casar com ela? Não me parece. Dependência demais, sentimento de inferioridade demais. Um tipo de amor, talvez? 

E agora, na contraface, a outra. A outra que é a outra: Henrietta Savernake, linda, livre, independente, artista. Henrietta é aquela por quem todos se encantam. E que no entanto entende que o posto de esposa já está tomado: não será dela, como teria gostado que fosse – ela será a amante e terá a intimidade de John, os sonhos de John, como Gerda não tem. No entanto, nada de todo dia: isso pertence a Gerda. Ela é a pessoa que tem mais paciência com Gerda, que tenta incluí-la nas conversas e fazê-la sentir-se à vontade. Não por fingimento: por compaixão genuína. Ou assim parece. Mas é, também, a pessoa que comete a maior crueldade: uma estátua inspirada em Gerda, uma estátua sem rosto, em que o que conta é o peso do pescoço e dos ombros: uma estátua a que dá o nome de “O Adorador”.  Ela percebe que isso é cruel, mas não consegue fazer diferente: a arte é o que a puxa para a vida. É o que lhe dá impulso. Ela é a amante, e  mesmo assim John se ressente porque ela não o coloca em primeiro lugar.

E aqui? É amor? Aqui é menos claro para mim. Acho que sim, que é amor. Que com John é entrega, mesmo que ele a acuse de não amá-lo o suficiente, de preferir-lhe sua arte. Arte é necessidade, é o que faz dela o que ela é e o que a torna livre para, sim, amá-lo. De igual para igual. A ele, as pesquisas médicas; a ela, as esculturas. Paixões paralelas e similares.

Gerda, Henrietta: um eixo. Formas de amar. Ou de achar que é amor. A entrega da adoradora Gerda, que não pede nada, mas no fundo espera algum reconhecimento do seu sacrifício permanente. A honestidade de Henrietta, sua incapacidade de fingir ser o que não é, embora fosse tão mais fácil, tão mais cômodo: ou eu estou aqui inteira, ou não estarei. Mesmo que isso me faça sofrer imensamente. Mesmo que estar inteira implique que o lugar do homem não é o primeiro.

Gerda e Henrietta, sementes. Arquétipos. Fios do novelo emaranhado que é o pensar o amor, nem que seja pelas beiradas. O nome do livro em inglês: “The Hollow”. Que é o nome do vale em que se encontra a mansão. E que quer dizer oco. Vazio.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

4 ideias sobre “Henrietta, Gerda, Agatha: faces e imagens

  1. Agatha Christie é reconfortante pra mim também, por todas as razões listadas no primeiro parágrafo e por outras. Como as tramas são enigmáticas, com muitos personagens e boa parte deles sem um perfil psicológico elaborado (eu acho), nunca me liguei nas entrelinhas. Vamos ver se tenho “A Mansão Hollow” para reler – agora com uma pitada do teu olhar.

    • Alessandra, eu leio e releio e releio. Mas o que eu sempre gostei na Agatha foram mesmo os personagens. É verdade que tem uns que são “figuração”: mas na maioria das vezes, os personagens são o que me pega na história. Nesse texto aqui, lá em cima, linkei um outro em que falo de outra personagem que adoro, a Lucy Eyelesbarrow. Vê lá se você lembra dessa.
      Obrigada pela visita e pela leitura! 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *