Quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha?

Por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

Ativistas e participantes de protestos foram presos por meio de medidas absurdamente arbitrárias que ferem direitos fundamentais da democracia. Essa semana, foram revogados os pedidos de prisão temporária e começaram a surgir mais informações sobre o inquérito.

Uma das principais testemunhas é um ex-integrante do grupo Frente Independente Popular que tem um histórico de violência contra a mulher.

Então, a denuncia de uma pessoa que se desentendeu com o grupo do qual fazia parte foi a peça fundamental para estabelecer o inquérito. Parece programa de fofoca, mas o melhor ainda estava por vir. A manchete em letras garrafais diz: Traição amorosa de ativistas ajudou na investigação do Rio.

Uma traição amorosa na cúpula da organização rotulada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de quadrilha armada ajudou os investigadores a apurar como agia o grupo responsabilizado pelo comando dos protestos violentos que ocorreram no Rio a partir de junho de 2013.

Líder dos manifestantes, Elisa Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, é acusada em depoimento de ter roubado o companheiro da ativista Anne Josephine Louise Marie Rosencrantz. Veja bem, Sininho não é apenas a maior terrorista que esse país já teve. Ela também ROUBA namorados de outras militantes. Nesse momento, alguém levanta a plaquinha: cadê a sororidade, Sininho? E eu respondo que a verdadeira sororidade é a siririca.

 Então, não basta acusar Sininho de ser uma terrorista por meio de ligações gravadas em que ela pergunta o preço de um rojão, que é vendido em qualquer loja que comercialize fogos de artifício. Também é preciso pintá-la como uma “destruidora de lares”. Porque mulher que rouba namorado de outra, com certeza não é alguém de confiança. Porque o machismo tem que ser inserido na questão para mostrar o quanto essa mulher faz “coisas erradas”.

 Em pleno 2014, nós ainda vemos afirmações como essas: mulher rouba o namorado da outra. Como se alguém pudesse ser usurpado de um relacionamento, como se as poções mágicas de amor fossem reais. Porque quem foi roubado é o homem comprometido, que estava indefeso e, segundo uma das testemunhas, era tratado como capacho por Sininho.

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 Não há defesa social para a mulher que rouba namorado na sociedade machista. Não há direito constitucional para a mulher que se atreve a ter relacionamento com um homem comprometido. Parece que não há desejo nos relacionamentos. Que as pessoas não fazem escolhas e não tem autonomia. Então, minha dúvida é: quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha? Preciso acumulá-los? Posso repassá-los numa boca de suruba? Posso traficá-los se pagar uma cerveja para a polícia? Porque a única acusação que há contra essas pessoas, segundo o próprio desembargador Siro Darlan, é essa.

 Sininho é uma mulher. E não sou eu quem vai dizer se é inocente ou culpada, não sou eu quem vai julgá-la. Porém, o veredito social de ser uma biscate, uma vadia, ela já tem. E me reconheço nesse veredito, porque perante os olhos da sociedade eu roubo namorados de outras mulheres, quando na verdade, estou apenas vivendo minha sexualidade sem me preocupar com os compromissos que essa pessoa tem ou não. Parece nonsense dizer isso, mas sinto que precisamos explicar: as pessoas não são um objeto para serem roubadas. Elas deveriam ser livres para serem o que quiserem. Ao menos, agora, Sininho responderá o processo em liberdade. Mas, a liberdade das mulheres fica onde quando o fato de roubar o namorado de alguém é um dos itens constantes num inquérito policial sobre formação de quadrilha?

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

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7 ideias sobre “Quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha?

  1. Bia, sua linda! Que ótimo texto! Eu só consigo ler nas redes gente que apóia os ativistas incondicionalmente (e alguns pelos motivos errados) e os que descem a lenha (por motivos mais equivocados ainda). Equilíbrio, por favor! Concordo que não sou eu que vou julgar, se são inocentes ou culpados, quem vai decidir é o judiciário. Como não li o processo e não conheço as provas, só posso exigir que os procedimentos legais sejam justos. E até onde eu sei, ser destruidora de lares não é crime. Se fosse, eu pegaria perpétua!

    Bjs

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  4. Boa tarde aos leitores do blog,
    É fato que a sociedade só ve a mulher como monstro e o homem como o santo da história, eu me relacionei com uma pessoa ha anos e só depois de muito tempo descobri a traição dele, ele me obrigou a abortar, dizendo que se eu quisesse continuar com ele teria que fazer isso para continuarmos juntos, eu sei que fui um monstro mas na vida a gente erra muito por amor, depois descobri que ele tinha me pedido isso pra outra não descobri, vi fotos deles nus e por ter Deus no coração não a difamei, no inicio eu me senti muito mal pela separação hoje vejo que eu vivia uma ilusão porque eu sempre tinha que fazer as vontades dele, a vida toda me senti como uma escrava que fazia tudo pra agradá-lo , mas vejo que um relacionamento doente como era o meu nunca iria dar certo, e agora tiro isso como lição para o futuro, posso dizer que agora tenho uma percepção muito diferente do que é o amor de verdade, amor é os dois tratarem bem um ao outro e ambos cederem mas nunca um ser submisso ao outro. Hoje estou conhecendo uma pessoa que esta me fazendo ver a vida com outros olhos alguem me faz me sentir especial e importante e não como a escrava submissa sempre pronta a agradar o machão, nós mulheres devemos pensar que temos importancia e nunca deixar nenhum homem nos humilhar, me lembro quando meu ex me dizia que mulheres são pobres coitadas que preferem sofrer do que estarem sozinha ainda que procurando a pessoa certa. Então, nós mulheres devemos entender que erramos uma vez mas não precisamos repetir o mesmo erro em relacionamentos futuros.

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