Cuidado, zelo, divisão de tarefas: desconstruindo Amélia

Como, realmente, conseguir dividir os trabalhos domésticos com o companheiro? Cuidado e zelo não tem que ser obrigação, mas partilha.

Há algum tempo eu li um compartilhamento de status de Facebook de uma amiga, a Débora Vieira , que compartilhou o post de uma amiga dela, Joyce Guerra). Era este o status:

“Estou num domingo de manhã fazendo sanduíches de pão de forma na frigideira. Essa atividade é extremamente cotidiana mas me deixa completamente feliz. Eu sei que por muito tempo acreditou-se que, na vida adulta, eu teria uma pessoa paga especialmente para prover minhas necessidades. Sei que supôs-se que eu viveria sempre na casa de outras pessoas. Então, numa manhã de domingo, cá estou eu, morando na minha própria casa, responsável por fazer os sanduíches de quatro pessoas, cada qual com sua especificidade. Pode parecer tolice, talvez, mas me sinto extremamente gratificada por fazer o café da manhã de todos eles. Por poder realizar seus desejos,ainda que em algo tão simples que é um café da manhã; por partilhar dessa atmosfera familiar entremeada por pessoas comendo e assuntos esparsados sobre o futuro e o passado. Existe uma gratificação indescritível em servir, seja aos filhos, seja aos amigos, seja mesmo a quase desconhecidos. Em receber coisas da vida e passá-las adiante, tanto em gestos complexos, quanto nos mais simples de estar disponível para alguém, e simplesmente ouvir, ou servir um pão de forma esquentado na frigideira. De repente percebo que a vida é boa. Não porque seja perfeita, mas porque ela gira, gira, gira e gira…”

E eu comentei, abaixo, com um link sobre as impressões que os gringos estavam expressando sobre nós, brasileiros: “Os brasileiros adoram dar comida para as visitas. É a forma de eles cuidarem de você.”

AMÉLIA

No entanto, nem tudo são flores. “Richard Diaz, do Chile – Fiquei surpreso de ver como é rápido fazer amigos aqui, tanto na favela quanto nos condomínios mais exclusivos. – Percebi que os homens são muito machistas. Eles tratam as parceiras como empregadas deles, especialmente em relação às tarefas domésticas.

E praticamente em seguida, outro link compartilhado me trouxe essa notícia, sobre a porquinha Peppa Pig acusada (?) de feminista. Nesse link, da Revista TPM, foi esclarecido o motivo da “acusação”: na casa da família Pig, todos dividem as tarefas de cuidado, ou seja, não tem essa de “ajudar” e achar que está sendo um favor.

Conversei sobre o assunto via Facebook com uma amiga que mora e Dublin, na Irlanda, e é mãe de quatro crianças (ou seja, uma especialista em Peppa Pig). Ela discordou veementemente da “acusação” feita à família de porquinhos. “O Papai Pig ajuda nas tarefas de casa, mas essa é a realidade da maioria dos lares europeus que não tem a ajuda de uma empregada”, afirmou Karine Keogh, brasileira e blogueira do “Ká entre Nós”. Segundo ela, a família Pig não seria comunista, socialista ou trabalhista, apenas uma família normal que divide as tarefas de casa entre pai e mãe. Eu sempre tive essa mesma impressão e por isso sempre gostei do desenho que é adorado pelo Samuca. No episódio abaixo, um exemplo da “acusação”: Mamãe Pig trabalha no computador enquanto Papai Pig faz o jantar sem-re-cla-mar. Isso acontece na minha casa e na casa de muitas famílias. Ainda bem! Uma pena que cenas como essa não sejam vistas como normal nos dias de hoje.”

Eu não “fui criada” para ser dona de casa (isso significa que fui ensinada a viver em um mundo onde alguém lavaria minhas calcinhas) – me ensinaram a fazer para saber mandar, claro que ainda bem que esse mundo ruiu e não achamos mais mão de obra barata a ser explorada para fazer as nossas tarefas domésticas.

O problema é que não são as “nossas tarefas”. Muitas e muitas vezes a tarefa é só de uma das partes. E quando não é, é de uma terceira, que é bem ou mal paga para cozinhar, lavar, passar, limpar, passear com o cachorro, cuidar das crianças, etc e tal.

E o dilema, meu e de algumas outras mulheres, sem falar em geração ou qualquer outro adjetivo que tente englobar as mesmas características em um grupo, quando são vários grupos, com várias características, é de como, realmente, conseguir dividir os trabalhos domésticos com o companheiro.

E ainda, falando, obviamente, por mim, é como reagir de forma equilibrada, buscando encontrar um método que permita que a divisão ocorra e que eu não coloque defeito em tudo o que meu parceiro faz, porque algo colocado lá dentro de mim há três décadas grita que “HOMEM NÃO SABE FAZER ISSO” e não adianta tentar ensinar. Sou eu, mesmo, essa mulher que pensa assim?

É, sim, um trabalho de desconstrução de tudo que aprendi, de tudo que cresci tendo como natural. Eu não seria como minha mãe, que só pode fazer o curso de Magistério. Eu voaria alto, eu e minhas irmãs. Foi todo um processo inclusive para aprender a entender as escolhas de minha mãe, colocá-las em um contexto, poder criticar de forma fundamentada (mamãe teve duas ajudantes, pessoas maravilhosas, que eram uma delas “como se fosse da família” e outra que realmente foi de certa forma como uma irmã, que trata meu pai como pai, mas que não teve as mesmas oportunidades, quis parar de estudar e parou, isso seria inimaginável para eu ou minhas duas irmãs “de sangue”. “Como se fosse da família”, essa frase tão corriqueira e tão… tão… não consigo expressar, é dolorido, com a vivência que tenho hoje, e fico querendo reparar os erros do passado, os meus, os da minha família, os de todo uma época).

E hoje, eu vejo minhas mãos enrolando pão de queijo, me vejo ligando para minha mãe e conversando sobre receitas, e reconheço o dom e o gosto pela cozinha, pelo prazer de cozinhar, pelo gosto de cuidar, de zelar, e ao mesmo tempo que me orgulho, vejo também aquele temor que Belchior escreveu e Elis cantou, de sermos os mesmos e vivermos como nossos pais.

Não quero reclamar que meu marido não fez tudo do meu jeito. Quero aceitar que ele tem o jeito dele, que não é o MEU, mas que nem por isso é errado. Quero que dividir as tarefas possa ser algo mais leve, mais feliz, sem cobranças. Quero aprender a ceder e a ensinar quando preciso, e a ser gentil ao explicar meu incômodo.

Quero cuidar, sem que seja só a minha obrigação, só isso.

Quero fazer o café da manhã e quero que façam para mim o café da manhã.

Quero desconstruir essa Amélia, para poder aceitar que tenho sim muito do cuidado e do zelo, mas que sou mais do que só cuidado e zelo. Que posso ser várias amélias, inclusive, e alçar altos vôos, sim.

amelia_earhart

Amelia Earhart, aviadora

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