Da inconveniência de se fazer ouvir

Por Niara de Oliveira

Costumo dizer que nasci comunista, me tornei feminista e me formei jornalista. E o meu jornalismo está a serviço da minha sobrevivência — é preciso — e está a serviço principalmente da comunicação contra-hegemônica e da luta por um mundo melhor. Não tenho nenhuma ilusão de que esse mundo possa ser reformado, será necessário botar esse abaixo e refazê-lo estruturado em outras bases e parâmetros. Tenho em mim indignação suficiente para isso, principalmente para essa primeira tarefa. A construção de um mundo outro, novo, eu sonho seja coletiva, todos aprendendo juntos, com amor e respeito. Ah, as utopias…que me acompanham há muito tempo.

ni_1995

eu, em 1995

Era primavera de 1995, se não me falha a memória. Eu ainda estava no PT, e tínhamos formado em Pelotas o Coletivo Socialista — que só não era um racha da Democracia Socialista porque essa tinha se desarticulado na cidade, mas todos (com uma ou duas exceções) já tínhamos ‘sido’ DS em algum momento. Esse coletivo, tendência municipal, era radical, excelente e daquele tempo guardo lembranças lindas da militância. Nossas reuniões eram como deveria ser toda reunião de um organismo de esquerda: aprovada a pauta, análise de conjuntura e os demais temas na segunda parte da reunião. Muitas dessas reuniões terminavam em jantares divertidíssimos — sim, troskos se divertem juntos. Mas, nem tudo estava bem. No coletivo, tinha apenas três mulheres que iam em todas as reuniões, pelo menos no início. Eu, Andrea e Sônia. Intervínhamos pouco, e feminismo e questões de gênero nunca eram pauta. E isso começou a me incomodar.

Um dia, conversei com a Andrea e nos articulamos para dizer isso pro CS, para expor que estávamos nos sentindo oprimidas pelo espaço, pela lógica da reunião e por nossa opressão específica nunca estar pautada. Porque espaços com mais homens que mulheres na esquerda inibem/reprimem “naturalmente” as mulheres de falarem, de se exporem. Quem já militou na esquerda sabe como é isso. Escrevemos um texto, fizemos cópia e distribuímos quando pedimos a palavra. Falei. Constrangida. Tremia. Eu, que já tinha feito comício, comandado assembleias de estudantes aos 16 anos, estava insegura de falar diante de pessoas que conhecia e com quem convivia há anos… Como é difícil falar da própria opressão diante do opressor, do ser que ali detém os privilégios e o protagonismo da cena! Foi difícil, mas disse. Dissemos. Abriu a rodada de intervenções sobre o tema e a primeira fala foi de um companheiro (hoje ex, felizmente) com quem militava desde os tempos de movimento secundarista, e que já tinha sido candidato a vereador e falado linda e encantadoramente das demandas das mulheres jovens. Ele pega o nosso texto impresso com um notável desprezo e diz em resumo que estávamos “carregando nas tintas” — nunca vou esquecer — e deu a entender que estávamos perdendo tempo com bobagens enquanto tinha uma luta maior e mais séria a ser enfrentada. Me senti violentada. E, mulher, descompensada e louca, desabei em lágrimas. E eu, que me sentia fraca, frágil quando chorava em público, passei a partir desse dia a respeitar mais minhas lágrimas.

Há uma naturalidade em desconsiderar a opinião e a fala de uma mulher. E os artifícios do discurso da esquerda para desestabilizar, desconstruir, desacreditar, desqualificar uma fala, principalmente quando é uma crítica, são sórdidos, mas eficazes. A gente mesma passa a duvidar do que está dizendo ou da importância de dizer aquilo naquele momento. “Será que era mesmo tão importante?”

Na madrugada de sábado revendo A Troca, um filme excelente do Clint Eastwood (qual não é?), me deparei e choquei de novo com a cena da personagem da Angelina Jolie com outra paciente no hospício em que falavam sobre a credibilidade da mulher ante um policial. Assistam:

Carol Dexter (Amy Ryan), 2:41:
“Todo mundo sabe que as mulheres são frágeis. Quero dizer, elas são instáveis emocionalmente, não são lógicas, (…). Sendo loucas, ninguém terá que nos ouvir. Quero dizer, em quem vão acreditar, numa mulher louca tentando destruir a integridade da corporação, ou num policial?” (tradução livre, minha)

Nesse final de semana, entre algumas conversas e essa cena do filme, me veio a dor daquela reunião do Coletivo Socialista lá de 1995, direto do túnel do tempo para o amargo na minha boca, só para me lembrar que nenhuma das bandeiras do feminismo foram superadas. Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai teriam ainda mais trabalho com essa esquerda muÓderna de agora.

PRESTENÇÃO, PESSOAS! Quando uma mulher (ou outra minoria) falar de si num espaço político ela não está apenas falando, ela está rasgando o papel que lhe foi designado, está rompendo com suas amarras e com o status quo. Mais respeito, porque esse é um movimento político da maior importância: é um oprimido enfrentando sua opressão.

E da minha libertação me encarrego eu.

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7 ideias sobre “Da inconveniência de se fazer ouvir

  1. Nossa, fiz viagem no tempo agora. Na vida. Com lágrimas nos olhos, das diversas vezes que me senti silenciada por “ser mulher”. A louca. A que não consegue se controlar emocionalmente. Pasme, diante de um mundo masculino que cultiva violências de todos os tipos, as loucas, as instáveis, somos nós.

    Gratidão por esse texto, querida. E um beijo pra você.

    • Dri, amada. Fiz a mesma viagem para escrever. É incrível como essas memórias somem, ficam esquecidas, e do nada um fato aciona aquela “gaveta” e vem tudo, a história, a dor, até o gosto das lágrimas choradas naquele dia. Beijo!

  2. Assim que vi o seu post levando a este texto lá no Face, com a introdução do último parágrafo dele, tive vontade de escrever nos comentários que a gente pode levar isso para todas as esferas da vida, não é? Como na maior parte das vezes somos tratadas, em casa, em rodas de amigos e amigas, como aquela pessoa engraçadinha, que quando fala todos riem, mas não prestam atenção. Como em rodas de amigas, amigos, às vezes, com 5 mulheres na mesa, e apenas 2 homens, paramos todas para ouvir a voz deles e quando estamos falando coisas “nossas” eles começam a ficar empulhados e nós mesmas, com peninha, voltamos a dar espaço para o discurso deles. Como as próprias amigas dão muito mais importância ao que os rapazes falam do que ao que nós mesmas falamos (eu incluída aí, não me safo desse comportamento). E, engraçado, mesmo em um espaço como o do Facebook, já notaram como compartilhamos muito mais falas de rapazes do que de nós mesmas. Sim, já me ressenti disso também, mesmo fazendo igual. E quando me ressinto penso, ah! mas eu devo ter escrito alguma besteira, o que escrevo não deve ser levado em conta porque não consigo me expressar tão bem quanto outras pessoas sobre a maior parte os assuntos. Daí fico nesse vai e vem, porque sempre foi assim, essa luta infinita desde pequena, dentro de casa, sendo lá duas mulheres e três homens. Uma das mulheres, a minha mãe, esteio de todos, porque era dela que vinha o sustento da família de forma mais equilibrada, porque trabalhava como funcionária pública no Ministério do Exército, onde entrou através de concurso, enquanto meu pai variava entre diversos lugares, variando entre eles conforme a sua doença permitia – era alcoólatra e se equilibrou depois dos 50 anos, através do AAA. Pois bem, ela trabalhava os dois expedientes e ainda quando chegava em casa, cozinhava e era super exigente com essas coisas de arrumação de casa e adorava um jardim, etc e tal. E ainda tinha que dá conta dos filhos, escola, roupas, médicos (costurava e cozinhava e ensinava como ninguém, pois era formada em Magistério e, apesar de não ter feito carreira ensinando em escolas, ainda bem, porque se assim o fosse, teríamos sofrido muito mais, com o salário de fome que professores sempre receberam, mas deu aulas particulares durante toda a sua vida e não apenas para crianças, no ensino primário como era chamado naquela época. Dava aula de matemática especialmente, para quem a procurasse e estivesse em qualquer nível de ensino. Deu aulas a netos até muito pouco tempo antes de morrer, já quase com 80 anos). Uffa….quase não paro, só para dizer que, no final disso tudo, mesmo sem ela exigir, era eu ainda quem ajudava em algumas tarefas, por que ela claro não pedia aos homens da casa e eu o fazia também por solidariedade , embora berrasse aos quatro cantos o quanto achava injusto. Então é assim, a gente nunca tem certeza de que e em que hora, podemos gritar e quando o fazemos ainda fica aquela dúvida se não estamos sendo chetas e histéricas. Apesar disso, apesar de todos estes sentimentos confusos fervilhando dentro de mim, sempre optei, por instinto , em gritar , mesmo que depois ficasse envergonhada e incerta sobre se o que fiz era realmente coisa de gente sã. É por aí. Bom esse lugar, porque escrevendo aqui eu relaxo e me sinto mais livre, embora, com certeza, mais tarde, eu vá para o meu cantinho me perguntar, será que não escrevi muita merda? Se escrevi, ela vai assim mesmo, sem correção ou maiores reflexões, no impulso do sentimento.

    • Rejane, querida. Falar da gente, registrar nossas memórias nunca é falar merda. Esse sentimento de dúvida e essa insegurança a que somos levadas pela opressão nem sempre tão sutil, acompanha a todas nós mulheres que insistimos em ocupar algum espaço público, seja ele qual for. Que bom que contaste um pouco mais da tua história e que te sentes à vontade para fazer isso aqui.
      Um beijo!

  3. Só deixei de assinalar aí em cima Niara, uma coisa que sempre te disse: amo seus textos, amo a forma como você escreve. Seus textos sempre nos dá vontade de falar de nossas experiências também. E como isso é bom. Além de serem lindamente bem escritos.

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