Depressão, gênios e demônios

Foi com espanto que o mundo recebeu a notícia da morte do ator Robin Williams na segunda-feira, dia 11, e com mais espanto ainda o fato da causa da morte: suicídio.

Segundo os vorazes sites de fofocas, Robin lutava contra as drogas, álcool e depressão há mais de 20 anos e teve uma forte recaída. Nas redes sociais tivemos de lamentos a condenações. O de sempre quando se trata de depressão e sua pior consequência, o suicídio, mas tivemos bem pouca compreensão.

A depressão não é, como se diz, uma doença moderna, ou mal moderno. Andrew Solomon, jornalista e escritor do já célebre – O demônio do meio dia – que eu li, amei e recomendo, trata de desmistificar a falácia:

“Esse é um mito que tenho interesse em destruir. Comecei pesquisando conceitos históricos de depressão. Hipócrates, há 2,5 mil anos, descrevia a depressão nos mesmos termos com que a descrevemos hoje. Além disso, dizia que era uma disfunção orgânica do cérebro, melhor disparada por fatores externos. Já Platão afirmava que era um problema filosófico, melhor resolvido por meio de conversas. Então, a distinção entre os modelos médicos e psicodinâmicos da depressão já existe há cerca de 25 séculos. Com intuito de observar melhor se era um fenômeno ocidental, me aventurei a estar em uma grande variedade de sociedades. Observei a depressão entre os sobreviventes do Khmer Vermelho do Camboja, entre esquimós inuítes, e fui até o Senegal, onde participei de sessões do tratamento ritual da doença, bastante populares lá. Constatei que a linguagem usada para descrever a depressão varia um pouco, mas a ideia de que algumas pessoas às vezes se sentiam inexplicavelmente divorciadas de todas as oportunidades e de tudo o que dava sentido para suas vidas existia em qualquer sociedade que pude encontrar.”
(Andrew Solomon: “O oposto da depressão não é felicidade, mas vitalidade”)

Enfim, esse trecho foi só pra dizer que tudo que o senso comum sabe sobre a depressão, sobre dizer que a falta de força de vontade, falta de Deus, e o escambau está errado. E sobre isso acho que vocês  já leram vários textos. Mas esse texto aqui é pra dizer que eu tive e tenho depressão e sobrevivi e chorei muito vendo Sociedade dos Poetas Mortos pela milionésima vez, um dos meus filmes favoritos, e uma grande performance do Robin Williams, com outros olhos.

Aquela cena em que ele vê o personagem do Robert Sean Leonard, o Neil Perry, saindo da peça arrastado pelo pai e sendo forçado a entrar no carro…Naquela cena, ainda sob o impacto da notícia de sua morte, vi nos olhos dele uma compreensão que ia além dos olhos do personagem, vi um brilho de tristeza, ele pressentia que ali podia ser o fim.

A depressão é uma força que draga todas as suas demais forças, de se levantar da cama, de comer, de sorrir, de viver. Não adianta ninguém te mostrar que há sol nas árvores, você simplesmente não vê. Ou vê, se procurar ajuda, o tratamento certo que inclui terapia e remédios sim, mas acima de tudo, nada disso funciona se fora não houver amor, se não houver carinho, amigos, família, amores. E a essas pessoas, meu muito obrigado.

Se você tem perto de você alguém em depressão profunda saiba que a morte é sim uma possibilidade real e que mais que tratamento é necessário ter paciência, um pouco de abnegação, sim, mas principalmente carinho compreensão e amor porque com amor tudo passa. Leiam, se informem e ajudem ao próximo.  Nunca pense que é só uma chantagem emocional, é um pedido de socorro. E fique em paz, Robin, obrigado por tudo. É tarde para você agora, espero que o apoio chegue antes pra tantas outras pessoas, assim como mais amor e menos julgamento.

genie

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

3 ideias sobre “Depressão, gênios e demônios

Deixe uma resposta para Niara de Oliveira Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *