Intervalo

intervalo

Essa noite. Essa noite eu vou. Essa noite vou aceitar convites, esquecer a hora, perder o rumo. Direi apenas sim e mais e quero. Essa noite eu vou sentar perto. Vou falar muito, gesticulando sempre e como se fosse pra ser, vou tocar teu braço. Uma vez. Outra. Até que seja isso: a fala vai no afago. Displicente, enquanto escuto com a cabeça inclinada e os olhos meio fechados, vou fazer da língua, brincante. Umedecer caminhos. Essa noite vou antecipar cumplicidades, inventar segredos, manter ditos inacabados. Vou encostar joelhos e esquecer o corpo no conforto de sentir outro corpo e deixar o quente de onde as peles se descobrem fazer fogueira. Essa noite vou usar superlativos, beber de outro copo, cruzar a linha, enfiar os pés pelas mãos.

Essa noite andarei bem perto, frequentarei esquinas e sombras, encostarei testa com testa e desfrutarei a mão na minha nuca, nos ombros, nas costas. Serei abraços. Essa noite ouvirei o rouco junto ao meu ouvido e me embalarei no som da ânsia, afastarei tecidos pra que minha pele seja percurso e facilitarei os atalhos. Essa noite encostarei no muro, levantarei a saia e, pra aproveitar melhor a brisa, vou entreabrir as coxas. Essa noite vou provar pele, morder lábios, beber saliva. Essa noite abrirei camisas, enrolarei meu mindinho em pelos ásperos e meu nariz deslizará em cócegas e minha língua o seguirá, curiosa. Essa noite vou assoprar olhos, mordiscar orelhas, lamber pescoços, murmurar desejos. Vou roçar o queixo em ombros e rir baixinho, vez ou outra, só pra confundir.

Essa noite vou ser em verbos: abrir, roçar, esfregar, molhar, morder, agarrar, mexer, mover, saborear. Descobrir. Essa noite serei em voz passiva: alisada, abraçada, sugada, tocada, beijada, perturbada, excitada.

Essa noite eu vou.

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