Louca

– Ah, aquela é uma louca!

Uma pessoa acaba de ser apontada como supostamente vítima de uma doença mental. Na maioria das vezes o “diagnóstico” é seguido por julgamentos morais, que invalidam discursos e desqualificam a pessoa. Cruel, não? Mas quantxs de nós não já fizemos isso? Quantxs de nós não acham que só podem ser loucas as pessoas que matam, estupram, maltratam outras pessoas, abusam de algum tipo de droga legal ou ilegal? Porque, afinal de contas, loucxs são apenas xs outrxs, não é?

Não mesmo.

Eu mesmo sou louca.

loucura 2

Apenas mais uma, parte dos 12% da população, mais de 23 milhões de pessoas, que necessita de algum tipo de atendimento em saúde mental. Mas assim como 93% das pessoas com algum tipo de doença mental não apresento histórico de violência. Mesmo assim, como a grande maioria, sofri e sofro um preconceito que deixa cicatrizes diversas. Esse preconceito tem até nome: psicofobia. O termo é adotado para designar quaisquer atitudes preconceituosas ou discriminatórias contra as deficiências e os transtornos mentais.

Sim, eu preciso de remédios “controlados”, que se chamam dessa forma porque só podem ser receitados por um profissional especializado, o tão “temido” psiquiatra, além de terapia, que faz um bem danado pra qualquer pessoa independente de ser portador ou não de qualquer doença.

Não, eu não preciso de orações ou da medalha abençoada da Virgem ou de um banho de descarrego, nem de fortalecer meu caráter, deixar de drama ou da sua pena disfarçada de condescendência. Tampouco o remédio que preciso é uma “cambada de pau”, como “aconselha” de “tratamento” para loucxs um ditado popular aqui no Nordeste.

Eu sou louca, mesmo.

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Isso não me torna genial, nem artista, apesar de saber que pessoas com doenças mentais têm maior propensão a trabalhar em atividades ligadas a criatividade. A inspiração para o meu trabalho não vem da minha doença, apesar de alguns de seus efeitos ajudarem na elaboração de certos… bom, digamos… “pensamentos”. Só que esses “pensamentos” também podem me levar ao suicídio. Não acho nada vantajoso. Vez em quando ainda me divirto bastante em viver, sabe? Além de não gostar que outras pessoas sofram em consequência das atitudes que tomo.

Sim, eu posso rir da minha doença, mas não farei isso às custas do sofrimento de um outro alguém. Como também farei o possível para não permitir que riam de mim e não comigo.

Posso rir sozinha ou acompanhada porque, apesar desse sofrimento e depois de muita terapia, descobri que assim como alguém que tem diabetes, preciso mesmo de alguns “cuidados” extras, mas posso e tento ter uma vida relativamente dentro dos padrões da maioria da população ativa do País.

Descobri também que assumir a loucura para mim mesma e para outras pessoas, inclusive neste texto, faz parte de uma série de ações que resolvi tomar para enfrentar a tal da psicofobia, que como quase todo preconceito nasce da ignorância e do medo, para continuar me cuidando e aceitando cuidados. Porque já deixei, assim como muita gente que conheço, de tomar um remédio que precisava porque eu era mais forte que “isso”. Já tive e tenho, ao continuar o tratamento, que contornar “piadinhas inofensivas” nas muitas tentativas de traçar paralelos dxs amigxs que usam algum tipo de droga recreativa com o medicamento que eu esteja utilizando. Já aconteceu também de ser qualificada como “preguiçosa” por empregadores por conta de uma maior lentidão na execução de tarefas quando no uso de alguns desses medicamentos. De “irresponsável” por temer levar atestado médico, que é meu direito legal, quando precisei me afastar mais de um dia do trabalho. Também já senti medo de contar para pessoas com as quais eu me relacionava sobre minha doença. Talvez, porque foram muitos os abusos e posteriores desmerecimentos desses abusos por algumas dessas pessoas.

Afinal de contas, eu sou apenas uma louca.

Porém, houve o diagnóstico e tratamentos adequados até que pudesse entender que carregar a doença como estigma ou uma questão “espiritual”, assim como muita gente que sofre de depressão, crise de pânico, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outras doenças mentais, é contribuir para esse preconceito. Inclusive, na sua forma mais cruel, aquele que desmerece o doente, culpabiliza e segrega.

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E, sim, quem usa a frase que inicia este texto como forma de julgamento moral é preconceituosa. Mesmo. Quer testar? É só fazer a substituição do “louca” na frase por quaisquer outros termos que histórica e socialmente foram ou são considerados ofensivos…

– Ah, aquela é uma (especifique cor de pele, orientação sexual, condições econômicas, profissão, características físicas ou doença)!

Deu para entender?

Eu sou louca.

E continuo sendo quem sou. Eu sou muitas “coisas”. Boas e ruins. Ruins e boas. Sinto preguiça, algumas vezes sou irresponsável, posso ser má e cruel consciente ou inconscientemente, sem para isso precisar de uma doença que me “justifique”. Assim como posso trabalhar gripada ou com dor nas costas e agir como o que comumente entende-se por boa pessoa. Mas, dentre essas “coisas” que sou, eu não escolhi ter uma doença mental. Que genericamente chamam de loucura. Eu não escolhi ser louca. Mas posso escolher não ser preconceituosx em relação a doença que tenho. Que não é absolutamente o que me resume.

E se você não pode, bom… você precisa de tratamento médico com urgência. Sua doença é bem mais perigosa que a minha. E já machucou gente demais.

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