Meu peito minhas regras

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 Seios. Peitos. Começo esse texto dizendo que admiro a beleza dos seios femininos. Seios que devem ser deixados livres para respirar, e para serem como forem. Seios fartos, seios discretos, seios de qualquer forma. São bonitos e são, cada qual, pertencentes às respectivas mulheres que os carregam. A elas, só elas, e mais ninguém.

Custamos muito nessa sociedade machista a aceitar o fato de que o corpo da mulher pertence somente à mulher. E não importa se ele está exposto ou coberto até o pescoço, nosso corpo é nosso e de mais ninguém. E temos o direito de dispor desse corpo como quisermos. Onde e como quisermos.

E não, não quer dizer que isso é um convite ao macho e aos olhares cheios de fetiche se os peitos estão descobertos, desnudos, ou aparecendo debaixo da blusa. Com decotes. Cobertos ou tapados. Não, não se trata de outra pessoa, não se trata de sedução, não é sobre você que está olhando, que está passando, que está convivendo. Trata-se do direito da mulher dispor sobre seu corpo, andar com seu corpo pelas ruas, fazer dele o que bem entender sem que outra pessoa se aproprie, interfira, ou invada esse corpo. Mesmo que com olhares avessados.

E dentre essa liberdade dos peitos e do corpo da mulher, tem um tema que sempre aparece: a amamentação. Essa fase em que algumas mulheres cis experimentam alimentarem seus bebês com algo incrível que eles podem receber: o leite materno. Colo, leite, peito, boca. Tudo ali, numa relação que é cotidiana e faz parte das paisagens do dia-a-dia.

Mas não é assim tão fácil. As mulheres cis que amamentam passam por diversas situações de constrangimento e restrição aos seus peitos de fora. Locais apropriados para amamentar. Expulsão de lugares públicos. Convites a amamentarem seus filhos em banheiros ou salinhas “apropriadas”. As restrições moralistas ao “local” da mulher amamentar, e como ela deve amamentar, são absurdos mascarados de “boas regras de convivência”. Machismo camuflado em cada olhar julgador do peito de fora amamentando uma criança.

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Não, a mulher não tem que usar paninho para esconder o peito. Não, não tem que amamentar no banheiro ou em salinhas escondidas. Ela não tem que nada. O lugar da amamentação é onde e quando a mãe e a criança quiserem.  E você que está em volta não tem nada a ver com isso. Acostume-se que a mulher tem um corpo, e que esse corpo pode ser usado como e quando ela quiser, da forma como quiser, e você não tem o direito de tolher ou esconder ou abusar desse corpo. Bem como você não tem o direito de interferir nessa relação: deixa a mulher dar o peito para o bebê, ou não dar o peito para o bebê, pelo tempo que quiser ou não quiser. Para a criança grande demais para mamar ou para a criança pequena demais para ser desmamada. Você não tem nada a ver com isso.

Venho discordando de posturas que praticamente obrigam ou julgam a mulher que hoje escolhe não amamentar. Ou escolhe, no cansaço do seu dia ou da sua noite, dar um complemento para o bebê. Dar um danoninho, uma chupeta. Um leite artificial. Sim, não tenho dúvidas acerca da importância da amamentação. Meu filho mamou até os 3 anos (essa foi a minha escolha e a minha história, que não se aplica a outra pessoa). Bem como não tenho dúvidas de que existe pouco apoio à amamentação, que as mulheres não são orientadas corretamente a amamentar, tirar leite para xs filhxs tomarem enquanto não estão perto etc, e que a indústria do leite artificial é poderosa em seus artifícios capitalistas e suas estratégias para vender leite e desqualificar a força e importância do leite materno, atingindo inclusive diversos profissionais de saúde que atendem essas mulheres.

Sim. Mundo capitalista, indústrias lucrativas em cima das mães e seus bebês, várias estratégias para minar a amamentação e aumentar o lucro das empresas de alimentos. E amamentar é de graça. E está tudo ali. Eu adorava a praticidade da amamentação. Não precisa lavar mamadeira, não precisa esterilizar, não precisa comprar lata de leite, nada. É só colocar o peito pra fora e pronto, você sabe que a criança está bem alimentada. Mas, e a mulher que não quer? Que não gosta? Que não consegue buscar apoio? Que trabalha e não aguenta a criança acordando de madrugada? Que tá cansada? Que tem sono? Ou que simplesmente não quer? Já ouvi absurdos julgadores que não tenho coragem de reproduzir. Não, essa mulher não é obrigada pelo bem do seu bebê. Não, essa mulher não precisa nada. O corpo é dela, o seio é dela, e na minha opinião isso sempre estará acima do que “é melhor para o bebê”. Recentemente vimos o caso absurdo e criminoso de uma mulher ser levada para uma cesárea contra sua vontade pelo argumento falacioso de que “era melhor para o bebê” (veja mais  aqui). Quem sabe o que é melhor para o bebê?

Quando aprenderemos a respeitar a escolha das mulheres, seja ela qual for? Mesmo que consideremos – no caso da amamentação – que essa escolha não totalmente é livre, pelo fato da mulher estar influenciada pela indústria do consumo, vamos respeitar e não intervir na amamentação ou não amamentação alheia? Vamos deixar de lado julgamentos às mulheres e nos concentrarmos na militância contra o sistema? Ademais, já é tempo de garantirmos às mulheres o direito amplo e irrestrito ao próprio corpo.

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* texto inspirado em uma discussão no facebook, principalmente nos meus diálogos com Deborah Leão, a quem agradeço a contribuição e as partilhas!

 

 

 

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