Não obituário

Por Niara de Oliveira

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Tanta coisa para escrever e dizer… Sobre cenário eleitoral, sobre luta pela legalização do aborto, sobre cenário eleitoral e luta pela legalização do aborto. Ainda sobre ditadura e da luta por memória, verdade e justiça — esses substantivos todos, todos femininos –, e sobre o aniversário da Lei da Anistia e a luta pela sua revisão…

Mas há dias em que seria melhor não estar, e calar. Não estar no corpo, não estar atenta e forte, não tomar conhecimento. Não dá. É preciso dizer, mesmo quando faltam as palavras. É preciso lidar com as dores e perdas. Embora a morte, essa biscate, não deva ser temida, ela está aí e chega pra todo mundo.

Nem tinha acordado e já estava mais pobre, já estava menos eu. E pensando aqui que deveríamos escrever mais obituários. Obituários não apenas para pessoas, mas para tudo cuja perda teve relevância na nossa vida. Relacionamentos, objetos perdidos. Já perdi até casa. Deveria ter escrito obituário para ela (a casa), para os óculos escuros esquecidos numa lanchonete do dia do impeachment do Collor, para as fotografias do Calvin levadas num assalto em Fortaleza… Tanta coisa. Tem até sonho que merecia um registro fúnebre.

Mas dureza mesmo é escrever o tradicional obituário sobre pessoas queridas. É uma arte que não domino. Tanto que estou dizendo isso tudo para evitar de cumprir a tarefa. Desculpaê, não dá. É a dor suplantando a abnegação de dar o reconhecimento, o devido espaço na memória para alguém muito querido.

Se alguém aí for bom em escrever obituários, escreva um desse texto, e outro desse dia. 🙁

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2 ideias sobre “Não obituário

  1. Oi Niara,

    Seu não obituário é uma homenagem e tanto, eu achei.
    Lembrou-me um poema que escreveu Carlos Drummond de Andrade quando seu conterrâneo João Guimarães Rosa se foi.
    Deixo aqui para você junto com um abraço.

    UM CHAMADO JOÃO

    João era fabulista
    fabuloso
    fábula?
    Sertão místico disparando
    no exílio da linguagem comum?

    “Projetava na gravatinha
    a quinta face das coisas
    inenarrável narrada?
    Um estranho chamado João
    para disfarçar, para farçar
    o que não ousamos compreender?”

    Tinha pastos, buritis plantados
    no apartamento?
    no peito?
    Vegetal ele era ou passarinho
    sob a robusta ossatura com pinta
    de boi risonho?

    Era um teatro
    e todos os artistas
    no mesmo papel,
    ciranda multívoca?

    João era tudo?
    tudo escondido, florindo
    como flor é flor, mesmo não semeada?
    Mapa com acidentes
    deslizando para fora, falando?
    Guardava rios no bolso
    cada qual em sua cor de água
    sem misturar, sem conflitar?

    E de cada gota redigia
    nome, curva, fim,
    e no destinado geral
    seu fado era saber
    para contar sem desnudar
    o que não deve ser desnudado
    e por isso se veste de véus novos?

    Mágico sem apetrechos,
    civilmente mágico, apelador
    de precípites prodígios acudindo
    a chamado geral?
    Embaixador do reino
    que há por trás dos reinos,
    dos poderes, das
    supostas fórmulas
    de abracadabra, sésamo?
    Reino cercado
    não de muros, chaves, códigos,
    mas o reino-reino?

    Por que João sorria
    se lhe perguntavam
    que mistério é esse?
    E propondo desenhos figurava
    menos a resposta que
    outra questão ao perguntante?

    Tinha parte com… (sei lá
    o nome) ou ele mesmo era
    a parte de gente
    servindo de ponte
    entre o sub e o sobre
    que se arcabuzeiam
    de antes do princípio,
    que se entrelaçam
    para melhor guerra,
    para maior festa?
    Ficamos sem saber o que era João
    e se João existiu
    de se pegar.

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