Nós Resistimos! Negra Soy!

Por Lia Siqueira*, Biscate Convidada

“Sim, dá trabalho. O preconceito bate na gente, mas nós resistimos.” Foi o que respondi quando uma senhora no ônibus perguntou: “dá trabalho deixar o cabelo assim?” Compreendi o que ela queria saber. Mas o que me sufocava naquele momento precisava ser dito. Não queria trocar segredos para dar viço e volume ao cabelo. Não queria mais falar de babosa, bepantol ou do potencial de um bom cronograma de hidratação. Até então, vinha dando as respostas estéticas àquele tipo de indagação. Essas respostas eram as esperadas por quem tinha a curiosidade despertada pelos meus cabelos “petulantes”. Contudo, chega um momento que todas nós precisamos transcender a questão estética da resistência – comunicar a subversão da nossa negritude e assumir, responsavelmente, nosso lugar – mostrar o que de mais valioso nasce das raízes, sobre nossas cabeças. A intimidade de olhar nossas raízes sem relaxantes que infestam e festejam nossas cabeças, nossas ideias.

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Cultivar a relação de amor com nossos cabelos negros e retirar de nós mesmas os mais poderosos nós. Não me refiro a alguns emaradinhos naturais, provocados pela textura dos cachos. Falo dos nós difíceis, dos amarrados dos olhares, do escárnio, dos julgamentos,do racismo. Isso precisava ser comunicado! Quantas vezes eu transcendi em frente ao espelho… Minhas mãos e olhares perseguiam as espirais sobre a minha cabeça – o encantamento, o prazer, o amor e a autoconsciência que daquele ato nascia fazia valer qualquer dor e desaprovação. A descoberta agridoce das minhas raízes era simplesmente o melhor sabor que passara pelos meus sentidos. Isso precisava ser comunicado! No breve momento, entre a pergunta e minha resposta, levei minha mente dos meus momentos da negação/frustração até à luta quotidiana pelo empoderamento em negritude.

Sou filha de uma branca e um negro. Nasci da mistura tão hipocritamente festejada para os gringos nessa nossa pseudo-democracia racial. Vim ao mundo assim: embaralhada nesse ser-não-ser negra. De pele “morena”, nesse Brasil em que todas as gatas são “pardas”, “moreninhas”, “torradinhas”, “mulatas”, “marrons”, mas não “negras”. No meu lar, não aprendi a rechaçar a negritude ou me embranquecer. Era amada nos meus cabelos crespos, pela minha mãe branca – ali, era eu e estava segura. Mas a socialização chega, ela é inevitável. Com ela, somos atropeladas pelos filtros dos preconceitos. A incompreensão dxs coleguinhas na escola rapidamente transformou-se em racismo. Como no início do poema de Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra, “Me gritaron negra”, eu recuei perante as risadas por causa do meu cabelo crespo. Antes dos treze anos já usava alisantes e relaxantes.

““¿Soy acaso negra?” – me dije ¡SÍ! “¿Qué cosa es ser negra?” ¡Negra! Y yo no sabía la triste verdad que aquello escondía. Negra! Y me sentí negra, ¡Negra! Como ellos decían ¡Negra! Y retrocedí ¡Negra! Como ellos querían ¡Negra! Y odié mis cabellos y mis labios gruesos y miré apenada mi carne tostada Y retrocedí ¡Negra! Y retrocedí…”

Com o tempo, sufoquei todos os verdadeiros motivos que me levavam a alisar os cabelos. Dizia alisar por uma suposta questão de praticidade. Reproduzia de maneira vazia “cabelo crespo não combina com o meu estilo e assim liso é mais fácil de cuidar”. As doses periódicas de guanidina me faziam postergar o conflito – ficava ali escamoteada. Habitei meu cárcere por 10 anos. O abandonei aos poucos, tive o amor da mãe e da irmã, o apoio das amigas e companheiras e a admiração do namorado por quebrar as correntes, preconceitos que introjetei. Minha raiz crescia e as perguntas também. E eu, que nascera embaralhada na aparência (pele cá, quadril e nariz acolá). Iniciava o caminho da autoconsciência, primeiramente desconstruindo, questionando. “A me perguntar: Eu sou neguinha? Era uma mensagem lia uma mensagem Parece bobagem mas não era não Eu não decifrava, eu não conseguia Mas aquilo ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia” “A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista”, disse Lélia González – a consciência de ser negra é uma conquista em um meio que pregoa o branqueamento. Avançando contra uma “normatividade racial”, onde antes eu tinha um pé, firmei os dois e construí minha identidade. “Nasci” mulher negra aos 23 anos, me descobri bela na luta, meu lugar! E hoje penso que, na verdade, é temor isso de evitar chamarem-nos (e nos chamarmos) de NEGRAS. Afinal, uma vez sabendo o lugar de onde falamos, saberemos como e ao que resistir. Compartilho esse lugar – vejo companheiras libertarem-se e empoderarem-se pelos seus fios, pela sua pele, pelo seu nariz, pelos seus quadris, pelo seu sorriso. Sei que a luta de tantas delas é ainda mais árdua por encontrarem resistência, inclusive, entre xs que amam. Mas sorrimos umas para as outras, admirando reciprocamente nossos “black’s” -nossos propósitos iniciam-se sendo cultivados em nosso corpo, nosso cabelo, NOSSOS territórios, mas transbordam-nos e transbordam a estética – resistem em forma de consciência negra. Isso, eu precisava comunicar àquela senhora. Isso, nós precisamos comunicar todos os dias! Como fazemos para nosso cabelo ficar assim? Nós resistimos! Negras somos!

“¡Negra! Sí ¡Negra! Soy ¡Negra! Negra ¡Negra! Negra soy De hoy en adelante no quiero laciar mi cabello No quiero[…] ¡Negra soy!”

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*Lia Manso é advogada, mestranda em direito s humanos e inovação. Faz parte do MNU e é Suplente da Coordenação Nacional de Mulheres no movimento. Milita e estuda pelo direito de minorias. Ama 30 Seconds to Mars e Johnny Depp, o filme Matrix e as séries How I Met Your Mother e Friends

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6 ideias sobre “Nós Resistimos! Negra Soy!

  1. Acho Muito importante o “posicionar-se” pois não há outra forma de garantir o seu lugar do que estando nele.
    “Vim ao mundo assim: embaralhada nesse ser-não- ser negra.”
    Não há insight mais louvável que este pois há negros que nascem e morrem “branqueados” sem se quer ter tido a duvida sobre o que veem no espelho.

    Parabéns Ótimo artigo!

  2. Pingback: Eu negra. - Portal Geledés

  3. Pingback: Combate Racismo Ambiental » Eu negra

  4. Pingback: Mixed Race Studies » Scholarly Perspectives on Mixed-Race » “Does it take work leaving your hair like that?” – We resist! Sou negra (I am a black woman)!” – The development of black identity for a negro-mestiça

  5. Lia,

    obrigada por esse maravilhoso texto! Obrigada por traduzir muito do que eu sinto, e me fazer pensar mais ainda, de que lugar eu me coloco.
    Eu tbm nasci assim, “embaralhada”, de pele “parda” (odeio essa palavra com todas as minhas forças), cabelo crespo, e feições bem misturadas.
    To no meu processo de “nascimento”, que começou há qse 03 anos, quando parei de tentar embranquecer meu cabelo.
    Tenho buscado outras mulheres que tenham tais experiências pra compartilhar, que tenham mais a me ensinar.
    obrigada!

  6. Texto belíssimo. Eu senti que havia algo a mais na música que citou do Cae. Agora, compreendi completamente. Eu também sou neguinha. E vivencio essa busca, esse encaixe, esse lugar. Um beijo, minha flor. E continue. Não pare. Vá em frente. Sempre em frente.

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