Para voltar a ter medo

Por Andrea Moraes*, Biscate Convidada

Ninguém quer sentir medo. O medo é desses sentimentos desprezados, desqualificados. Ser medroso é um xingamento. O medo, já dizia um daqueles moços que inventou o “Contrato Social”, ou uma de suas versões, é o que faz o Homem depositar tudo o que tem na esperança de ser vigiado por Outro. Ele pode paralisar, destrói silenciosamente qualquer aposta de futuro. Definitivamente, o medo não é boa companhia. O medo vem em muitas embalagens, grandes e pequenas, de formas e pesos diferentes. Mas, não importa muito como venha, é sempre ele, onipresente, avassalador.

Quem não se lembra das historinhas infantis onde o medo é ingrediente fundamental? Tem até a versão do Chico Buarque para o tema: Chapeuzinho Amarelo, amarela de medo! Além das historietas mais moderninhas que querem fazer as crianças “aprenderem a refletir sobre… blá-blá-blá”. Na adolescência tinha Stephen King, o máximo dos máximos, tudo de bom. E aquelas tardes no cinema gritando de horror, beijando loucamente e deixando a mão dele deslizar e apertar enquanto se vivia o susto e o êxtase. Ai, o medo, como era bom!

Em algum momento da minha vida eu parei de sentir medo. Ele simplesmente me abandonou por um longo período. Não senti falta. Na verdade, eu não me dei conta de que a previsibilidade, as certezas, aquele gosto de rotina só existiam porque ele tinha ido embora. Nada contra esse mundo de relojoaria suíça, eu gosto dele assim. Pés no chão, coração tranqüilo. Uma pessoa pode viver assim por um longo tempo. Para alguns, poder viver assim é tudo o que se pede. Mas, eu confesso que sinto falta de ter medo. Sinto falta da potência que ele despertava em mim.

O bom do medo é que ele se instala sem aviso. O medo vem pra bagunçar o coreto. Aguça os sentidos, traz vertigens, a fantasia. O absurdo vira seu vizinho e estão abertas as portas pra tudo e qualquer coisa. O medo, se vivido em todo seu esplendor, é uma força criativa, faz o impossível. Sentir medo, meus amigos, pode ser libertador. Mas, para isso, há que abraçá-lo sem peias, sem pudor. Entregar-se ao medo sem resistência é o que faz dele o melhor sentimento do mundo. O medo não se combate, se acolhe. Apontar para o medo, mostrar que ele está ali respirando ofegante ao seu lado, animal colado na sua pele. O medo que é, antes de tudo, cria da sua costela e não algo que vem de fora, do outro. Não! O medo está todo ali em você, é sua obra mais espetacular, o testemunho da sua vida. O medo é o seu filho torto, e não aceitá-lo é a receita para alimentar o que ele tem de menos encantador: a atrofia. Acolher o medo é o que ainda nos falta pra viver melhor.

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AndreaBiscate

*Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, tem 43 anos, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

 

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3 ideias sobre “Para voltar a ter medo

  1. Que coisa, Andréa. Eu li uma primeira vez, e li de novo, e de novo…. eu nunca tinha pensado no medo assim, sempre pensem em algo que castra. Tô pensando ainda por aqui, adoro texto que dá nó nas idéias….!
    Beijo, venha sempre!

    • Digamos que é uma visão muito pessoal sobre o assunto. Medo me faz falta, sempre corri dele e acho que perdi muito na vida fazendo isso. Essa é meu ensaio sobre o medo e um desafio de vida também. Beijos

  2. Como a Renata, estou aqui matutando…. Texto bom é assim.

    O medo é caro porque, se acolhido, nos protege, é sinal de integridade. Quando vira tormenta, atrofia, para usar sua palavra. Mas o mais bonito do medo é quando vem acompanhado de alguma potência de transformação, que empurra mas também joga no risco, bagunça o coreto. É bom pacas, Déa. Tens razão.

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