Propriedade, julgamentos e violência contra a mulher

Por Niara de Oliveira

A super lua de ontem me fez saudosa de muitas coisas. De mim, inclusive, da Niara que enxergava o mundo e até escrevia com um pouco mais de encantamento e poesia. Lembrei de um post onde contava um pouco das minhas memórias, da lua e de uma música, feita pra lua e sobre ela.

Ando seca. Talvez seja Xangô me atormentando e dizendo que não se pode descansar ou vacilar com tanta injustiça em volta. Só que é aquilo… Tanta injustiça embrutece a gente. E é só das injustiças e indignadades desse mundo que estou sabendo escrever. De modos que… Segue mais uma.

Acordei num mau humor do cão ontem. Porra, domingo, um dos raros em que não teve festa em nenhuma das ruas aqui perto de casa em OuCí e nem ensaio da banda horrorosa que ensaia na casa do lado… Mas tinha foguetório — sempre tem — e Lalá latindo, ogro gripado e roncando e se atirando na cama, #dinofilhote acordando toda hora. Não consegui dormir duas horas ininterruptas. Quando finalmente “acordei” e fui fazer meu café para sentar em frente ao pc e trabalhar — vida de jornalista freelancer é isso mesmo –, Gilson comenta sobre essa notícia que acabara de ler nas internetes… Fui despertada por ela.

Em julho do ano passado vi uma matéria com esse casal, Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine. Eles tinham feito uma “tattoo de compromisso”. Ele tatuou seu sobrenome na parte frontal do pescoço e ela tatuou um carimbo estilo “made in” dentro de um retângulo tracejado nas costas, próximo ao ombro direito, dizendo “PROPERTY OF WAR MACHINE” (Propriedade de War Machine — seu codinome de lutador).

montagem com as "tattoos de compromisso" feitas por Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine

montagem com as “tattoos de compromisso” feitas por Christy Mack e War Machine

Pausa. Respira. Respira de novo… Respira mais fundo. Bóra descascar esse abacaxi…

Suas profissões não vêm ao caso. Conhecemos inúmeros casos de homens agressores extremamente violentos exercendo profissões consideradas até dóceis. E a vítima, bem… É só a vítima! Me nego a fazer qualquer observação a esse respeito porque considero que a mulher é livre para fazer o que bem entender, inclusive uma tatuagem dizendo que é propriedade de outrem ou casar e assumir o sobrenome do marido. E sabemos também que a violência contra a mulher é democrática, horizontal, perpassa todas as classes, raças, países, origem, idade, credo e conduta.

O que tem de errado nessa história — além da violência, que infelizmente já foi “normalizada” — é a forma como a notícia foi apresentada. Em primeiro lugar editores do portal Terra, violência contra a mulher não é “confusão”. Confusão é jogar dinheiro pra cima no meio do Saara ou do Mercadão de Madureira ou na 25 de Março ou ainda no Bric da Redenção. Quando um homem espanca uma mulher, independente da natureza de sua relação (pode não haver nenhuma, inclusive) é apenas e tão somente violência contra a mulher. Não há meias palavras, não há relativização a ser feita, não há pílula a ser dourada.

Em segundo lugar editores do portal Terra, não fica claro no título o motivo pelo qual Christy Mack não está podendo falar. Não poder falar é eu fazendo o #dinojantar com as mãos ocupadas entre a cebola, a pimenta e a colher de pau sem poder pegar o telefone para falar com alguém. E o pior de tudo, editores do portal Terra: Por que a profissão de Christy abre a frase do título da notícia? Por que o julgamento moral e o machismo dx editxr (deve ser um homem quem exerce o cargo, como indicam as pesquisas a respeito de cargos de chefia no jornalismo brasileiro, mas como o machismo é estrutural e estruturante, e passível de ser reproduzido por todos, inclusive mulheres, melhor deixar o gênero do cargo indefinido) responsável por essa seção do portal são mais importantes que a notícia? Atriz pornô merece apanhar? Atriz pornô que namora lutador de MMA violento a faz menos vítima? Atriz pornô que tatua ser propriedade de namorado violento a torna merecedora de violência? Se a atriz vítima de violência fosse de comédia a sua profissão estaria no início do título?

A questão é que tanto faz. Não importa sua profissão ou qual a sua especialização como atriz, sua conduta e nem mesmo sua permissividade com relação à violência. Não cabe à chefia da editoria do portal Terra julgar isso. Jornalismo relata fatos, conta como eles aconteceram, o “julgamento” fica a critério de cada leitor/a. E sabemos que nem precisava desse escárnio com Christy para que ela fosse julgada como merecedora do espancamento do qual foi vítima. Se ao ler a notícia, mesmo que nos detalhes finais, estive escrito que ela é atriz pornô todos a julgariam. Então, pra quê? Sabemos pra quê, mas estou questionando diretamente a editoria do portal Terra. Porque nesse caso não é o repórter peão que não pode ser responsabilizado pela manipulação da informação do veículo onde trabalha, nesse caso é a chefia, é quem detém a confiança do proprietário do veículo que deveria ser de informação, e não de julgamento.

Como ficaria um título isento para essa matéria? “Atriz é espancada e mal consegue falar. Namorado está desaparecido”

Se Christy não tivesse se tatuado como propriedade do namorado, ela estaria a salvo da violência? Não. Nenhuma mulher está. War Machine se sentiria menos proprietário de Christy sem a tatuagem? Não. Homens tendem a se sentirem proprietários da mulher, independente de terem ou não uma relação com ela. Há uma enxurrada de casos de assassinatos de mulheres onde o feminicida é o ex. Nesses casos todos é comum a imprensa vimitizar de novo a mulher ao julgá-la, como fez (e ainda faz) no caso da Eliza Samudio, só para citar um exemplo.

Não importa o que façamos, o que somos ou o que pensamos. Quem está na berlinda é sempre a mulher. E me admira muito que numa matéria com esse título não tenham dado uma rápida guglada e citado a tattoo como mais um atenuante para o agressor…

Não sei vocês, mas eu estou pelas tampas com moralismo barato usado para justificar machismo, misoginia e, por consequência, violência contra a mulher.

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atualização 11/08 às 13h30: Até consigo entender que num portal todas as notícias relacionadas a “famosos” estejam num mesmo local, mas é inadmissível que um caso de violência contra a mulher esteja na seção “Diversão”.

atualização 12/08 às 14h15: Christy Mack divulgou em suas redes sociais na segunda à noite um comunicado agradecendo o apoio e carinho que vem recebendo e relatando o que houve. Esse comunicado foi traduzido e divulgado pela seção “Combate” do Sport TV da Globo.com, num tom bem mais aproximado da realidade dos fatos. Mesmo assim, num trecho diz [o que talvez para alguns justifique as agressões de War Machine]: “Ela relatou que foi espancada pelo atleta, com quem teria rompido relações há três meses, após >>>ser flagrada<<< junto a um amigo em sua casa em Las Vegas.

FLAGRADA??? O termo flagrante aqui dá a ideia de que ela estaria fazendo alguma coisa errada. A própria Christy justifica em seu comunicado que ela e o amigo estavam vestidos quando da chegada de War Machine em sua casa.

Diz a Renata Corrêa, e eu subscrevo: “As mulheres são flagradas de biquini no site de fofocas, flagradas conversando com amigos pelo namorado ciumento mas o único flagra mesmo é do machismo na sociedade. A menina ainda tem que dizer que estavam vestidos. E se estivessem pelados? Podiam apanhar?

Por fim, um trecho do relato de Christy com parte do “saldo” de seu espancamento e as fotos dela no hospital ontem (11/8): “Minhas lesões incluem 18 ossos quebrados ao redor dos meus olhos, meu nariz foi quebrado em dois lugares, perdi dentes e vários outros (dentes) estão quebrados. Estou incapaz de mastigar e de ver pelo meu olho esquerdo. Minha fala está confusa por causa do inchaço e da falta de dentes. Tenho uma costela fraturada e o fígado severamente rompido por causa de um chute na minha lateral. Minha perna está tão lesionada que não consigo andar sozinha.

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

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4 ideias sobre “Propriedade, julgamentos e violência contra a mulher

  1. Concordo com toda crítica ao jornalixo que tratou de forma estúpida o caso.
    Temos mais um terrível caso de violência contra a mulher, que por pouco não chegou à eliminação física, ao feminicídio.
    Agora, sim, há um enorme problema no fato de a moça ter tatuado: “Property of War Machine”. Não por discursos moralistas, JAMAIS para justificar a agressão e culpar a vítima.
    Mas com essa tatuagem, ela declarou: não sou um ser humano. Sou um apêndice de um ser humano. Sou uma porra de um objeto. É a oprimida que internalizou a opressão, que enfiou no mais íntimo do seu âmago essa opressão. Que acreditou não ser um ser humano dotado de vontade própria, dotado de possibilidades infinitas. mas uma Fêmea. Sim, há problema nisso e sim temos que falar sobre isso.
    Estamos convivendo com índices alarmantes de violência doméstica, de feminicídio. A luta contra essa situação alarmante passa sim por uma conscientização das mulheres sobre seus próprios direitos. Não é culpando vítimas, não é fazendo julgamentos morais estúpidos. É identificando essas estruturas de opressão, é combatendo essa ideologia que sim, infelizmente está dentro das mulheres.
    Tenho uma amiga que sofria violência doméstica. O ambiente do meu ex-trabalho, com muitas mulheres independentes e feministas, foi fundamental pra influenciá-la, apoiá-la num processo de libertação daquela relação opressora, que estava acabando com a vida dela e do seu filho, esmagando ela. Acredito que esse seja o papel de nós feministas. Criarmos redes de solidariedade, ajudarmos num processo de libertação dessa cultura opressora, violenta, que nos tira nossa humanidade.

    • Mariana, desculpa, mas a gente não pode dizer o que a outra pessoa quis dizer ou pensou ou sentiu. A tatuagem é dela, ela coloca o que quiser, seja acreditando nisso, seja por zueira, seja pelo que for. Eu não sei no que ela acreditou e, olha, não interessa. Nada, NADA, NADINHA tira dela o direito de ser respeitada. Acho que a conscientização das mulheres não é um bloco homogêneo de valores ou comportamentos. Espaços feministas, ouiés. Espaços e pessoas que sabem como os outros devem viver ou sentir ou fazer. aí eu já não topo.

      • “Não por discursos moralistas, JAMAIS para justificar a agressão e culpar a vítima.”
        Você realmente leu meu comentário? Em nenhum momento afirmei que a tatuagem tira NENHUM direito ou dá o direito de NINGUÉM justificar o que aconteceu com ela, relativizar, ou o que quer que seja.
        Aliás, acho que devemos reconhecer a coragem da moça por ela ter divulgado seu caso, as fotos, coisa fundamental pra conscientização e mobilização contra a violência machista, contra o feminicídio.
        É a minha opinião, acho que a tatuagem não é algo menos importante, ela é muito simbólica, das estruturas de opressão, de uma ideologia.
        Não acredito em bloco homogêneo nenhum. Acredito em diálogo, troca, em solidariedade, e com isso a possibilidade de combate ao machismo, às estruturas materiais e simbólicas de opressão. Não acho que ela deve ser crucificada por conta da tatuagem, deixei isso claro, isso seria moralismo raso e estúpido (que deve ser combatido, nesse ponto, como deixei claro no comentário, concordo totalmente com o texto). Mas acho que é importante tratar sobre, a tatuagem está num contexto maior, e não tem como ignorar seu simbolismo…

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