Da Fantasia

Ela enterra o rosto no travesseiro e pronuncia, tomando cuidado para não produzir nenhum som:

 – (…) *

Não é ele que está ali. Enfiando o pênis com enorme vontade sua vagina adentro.

Olha para trás. Pela expressão de prazer do outro, de fato, não produziu nenhum som. De qualquer forma, ela está de quatro, alguns gemidos esparsos. Seria preciso muito para desconcentrá-lo do seu próprio esforço de chegar ao gozo. Arriscou então um sussurro, ainda junto ao travesseiro:

– (…)

Olhou pra trás novamente. Não, ele não ouviu. Pode então, levar os dedos ao clitóris, movimentá-los com algum vigor e gozar. Enquanto os espasmos aconteciam, repetia o nome mentalmente repetidas vezes. Se concentrava para visualizar aqueles olhos. Pra se lembrar a cor morena exata da pele. Pensava nos nós dos dedos das mãos. Minutos depois, insone, enquanto o homem ao seu lado ressonava, se perguntou: como diabos eu vim parar aqui?

Ele era um amigo. Só um amigo. Bonito. Atraente. Mas um amigo. Só um amigo. E nem tão amigo. Amigo de trabalho. Viam-se uma vez por dia. Ocasionalmente um abraço. Conversavam fatos do mundo e da vida. Confidências poucas. Algumas piadas que possibilitavam outro sentido, porque era do feitio dele. Quando, certa feita: BOOM. Ela se viu pensando mais. Esperando que ele chegasse. Insistindo nos abraços. E imaginando que fosse ele a estar enfiando o pênis com resoluta vontade sua vagina adentro. Olhando-a com aqueles olhos de comer e estraçalhar, enquanto ela estivesse de joelhos, sugando seu pênis com dedicação. Dizendo-a com aquela voz tão suave, quase como que produzida dentro de campos de algodão, o quanto sua bunda era grande, seus peitos eram belos, sua buceta era molhada. – a este ponto, já falariam em bucetas e paus, e no prazer de todo o resto.

Começariam a conversar algum dia. Uma coisa levando a outra, ele contaria que sempre que a via sentada, com as costas eretas, na cadeira do escritório, imaginava-a nua, sentada sobre ele. Ela diria que todas as vezes, nos abraços, quando ele levava a mão à sua nunca, imaginava-o puxando-a pelos cabelos, direcionando sua boca para beijar-lhe todo o corpo. Ela confessaria que tremeu de tesão naquele dia em que desceram as escadas juntos e sozinhos. Ele, que o batom vermelho dela o botava louco.

Esperariam, então, que todos os outros se fossem. Inventariam que o compromisso atrasou-se e não poderia ser deixado para o outro dia. Encaminhariam-se, já se beijando, sem nada dizer, para dentro do banheiro e foderiam ali, de pé, roupas postas, com pressa e sofreguidão. Encostados à pia, o espelho apenas a testemunhar o desejo. O pau ereto arranharia as mucosas, na falta de preliminares apropriadas. Mas, uma vez inteiro dentro, os líquidos desceriam abundantes e o movimento tornaria-se fácil. Ele agarraria os peitos dela ainda sob blusa e seguiria metendo-se com determinação e força. Gozaria. Ela não faria questão. Queria sair de lá levando a expectativa consigo. Queria permanecer sentindo a circulação pulsar. Como um “quase” físico. Como uma esperança de que mais haveria. Apaixonariam-se.

E então, ela notou que a esse ponto, não era mais da vagina que a fantasia fluía. Mas daquele lugar sabe Deus onde fica, de onde a gente espera demais da vida, quando lá está. Fechou este livro então aberto e depois os olhos. Adormeceu. Sonhou com ele, mas não lembrou detalhes. No outro dia, pegou-se pensando no quão clichê, para os outros, seria: reivindicar-se a vida toda tão biscate e tornar-se infiel.

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