Pulso

Ele segura sua mão. Ela, deitada, enfraquecida, muita pele, muito osso. Dor. Muita dor. Ele chora. Ela, não. Ela não produz mais lágrimas. Produz ausência. Lembranças. Ele lembra: o riso, sempre. O primeiro beijo, tudo errado, dentes batendo, línguas demais. Tesão. Ele lembra o choque de desejá-la tanto que teve que se afastar pra não gozar só encostando nela, esfregando nela. Lembra os seios, jovens e duros, depois macios e pesados, ainda mais depois, saborosos e moles. Sempre dela. Sempre bons. Lembra a pele enrugando e a mão dele se perdendo nos cantos quentes: entre os dedos, a curva do pescoço, atrás do joelho, entre as coxas, o cu, a buceta molhada. Sempre pronta, ela dizia. Sempre foi verdade.

Lembra as certezas que teve: pra vida toda. Só não sabia é que, mesmo toda, a vida também acaba. Lembra de esquecer a felicidade mas, em fragmentos, ela o machuca. Lembra as conquistas que avaramente empilhava e ela sempre tratava de zombar, ele fazia o inventário de sua felicidade e ela espalhava em ventanias de desassossego. Lembra que sempre queria mais e ela sempre tinha mais pra dar.Lembra a trepada no banheiro do restaurante. Lembra as viagens de carro e o sexo oral que ela lhe fazia com olhos risonhos. Lembra a intimidade em casa, o natural andar nu e, de repente, o pau latejava, ela ria adivinhando a necessidade dele. Lembra as mudanças: papaiemamãe, de quatro, de lado, ela cavalgando, ele invadindo, em pé, sentados, lenços, óleos, bolinhas, de quatro, papaiemamãe. Lembra os dias em que não saíam de casa, o sexo fazendo às vezes de comida. Lembra o mês inteiro sem trepar, a mãe dela doente, ela sofrendo junto, ele sofrendo com ela. Lembra as perdas, todas as perdas que eram vazios maiores que o espaço do seu abraço.

E, claro, lembra o rabo. Que bunda, senhor, que bunda, ele a enrabava sempre que podia, ela fazendo doce, aiaiai e oferecendo e pedindo e mandando. Enfia. Sim, ele lembra, ele pensa, mais, mais e ela sempre tinha mais pra dar. Lembra as mãos dela tocando, agarrando, movendo-se, firmes, fortes, quentes. Lembra a língua dela deslizando no seu corpo. Lembra os dedos dele se enfiando entre as pernas dela a qualquer hora. Quente. Molhada. E, agora, ela quase não está mais lá.

Ele segura sua mão pra que ela não parta sem que ele saiba. Não, ele segura sua mão para que ela não parta. Ele a quer, tanto. Ele, em pontadas, reconhece sua fome. Será?

Vira a mão que segura com zelo e beija o pulso que acelera quase imperceptivelmente. Ele sempre a tirou do prumo. Ele a olha. Olhos entreabertos, respiração difícil, osso, pele, dor. Ela adivinha. Sempre soube do tesão dele no momento mesmo que. Quero. Querida, tem certeza? Quero. Ele sobe na cama de hospital, alta demais, estreita demais, não importa. Ela está nua, coberta apenas pelo lençol. Ele se coloca entre as pernas dela, as mãos não se demoram, o dedo procura os lábios, grandes e pequenos, afasta-os: quente, pronta. Ela: eu disse que queria. Ele ri, precisava ter certeza. Curva-se, com uma certa dor nas costas, a idade pesa nele um pouco menos, mas também já chegou. Desajeitado, repete o beijo. O primeiro. O errado. Línguas demais, dentes batendo, vontades que não se pode dizer. Que nem mesmo se devia sentir. Mas ela sabe, sempre o soube antes dele aceitar o querer. Afasta a coxas e a faz dobrar os joelhos, porque ela já não tem forças. A língua já conhece os caminhos. Primeiro os grandes lábios, sem pressa. Pra cima, pra baixo. Com força, leve, leve. Beijos. Sugar, sem força. Ela arfa. Ela ri. Ou não é riso isso que acende lágrimas no olho dele? Ele para. Não, não, continue. Ele entrelaça a mão com a dela, e dirige-se aos pequenos lábios. Mais delicadeza, mais prazer. São brancos os poucos pelos que restam. Ele sopra, quente, uma brincadeira de sempre. O clitóris chama. Pulsa, avermelha-se. A língua desliza, certeira, e pressiona. Ele beija. Chupa. Lambe. Roça o queixo, flácido, no sexo dela. O dedo entra e sai, entra e sai, entra e sai. Ela soluça. Leva a outra mão dele com esforço até a boca e, num movimento firme, chupa o polegar. Ele também arfa, meio sem ar. Ela sempre soube deixá-lo tonto. Ele, mais rápido, dedo e língua. Ela, mais firme, com mais fome, polegar. Ele chora. Ela não. Não produz mais lágrimas. Gozam. Ela geme, ele já não sabe se de prazer ou da dor que é sempre dela. Ela vai embora hoje, ele sabe, ela sabe. Ele desliza pra fora da cama, pega um copo d’água, senta e segura, mais um pouco, a mão dela. Beija o pulso, mas já não há.

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7 ideias sobre “Pulso

    • pois é, somos tão impregnados pela cultura da juventude e talz que tantas vezes não nos permitimos ver e/ou aproveitar a vida que passa e é.

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