Dos escuros

Dos escuros que me contam

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Está escuro. O brilho da noite se desfaz em estrelas opacas, ofuscadas por grossas nuvens. Meus olhos tateiam impossíveis respostas, enquanto a noite cai em silêncio. Silencio. As batidas do meu coração se fazem ouvir em lampejos e lamentos que deixo escorrer pela janela. As poucas luzes vizinhas me contam que a existência permeia meus arredores, vagas sombras humanas.

Conto-me baixinho. Para mim mesma. Histórias de desejos que me fazem o hoje que respiro. Entre fumaças que trago, expiro ar viciado dos pulmões, fazendo-me dispersa em parca racionalidade.

Sinto. Pulso que me inebria e me desce pela garganta os nós que não sei desfazer. Esse eu que não sei como encaminha as perguntas que faço nessa ausência de claridade. Escureço.

Meu corpo vibra,  o tesão me sobe pelas orelhas e alcança a nuca que sente frio. Estou viva. A eternidade desse momento me consome. Quero correr mas os passos não chegam. Quero chorar mas as lágrimas não me alcançam. Quero gozar mas não acho os dedos que me acariciam.

Mais uma taça de vinho, vermelho entre os lábios, grito surdo que me sufoca. Travo a língua entre os dentes, arrepio na espinha, conjugo verbos impossíveis como dormir. O sono é um deserto com águas abundantes que não consigo beber. A madrugada me acalenta, escuto a música que vem de dentro em versos ritmados que não cantam meu querer.

Queria. Um tanto. A felicidade fugidia por entre os dedos. Uma casa de acasos que se molda solta sem perder o chão. Afundo a cabeça no travesseiro. Permeio-me de mim, perdida no espaço-tempo de agora. Voo sem tirar os pés do chão, tenho peso que me carrega, tenho voz que me ouve, batidas estancadas e secas que me acordam os sentidos.

Sinto o muito que me desperta e me cala. Rodopio. Não te acordo, deixo que durmas sua noite sem mim. Deixo que vá ao encontro de seus processos que não me cabem. Deixo-te densa e seguro sua mão que sua e procura respostas que não tenho. Deixo-te livre para que sofras a dor que não se partilha. Partilho com o escuro as minhas dores, rezo para um deus que não tenho, procuro-me para aguentar a noite que não me acalenta.

Somos sós, nesse emaranhado de descobertas conjuntas. Somos cada qual sua própria incógnita e universo, procurando desesperadamente aquilo que se chama amor. Ou o que chamamos, com algum descuido, de amor.

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