Eu tô cansada dessa merda

Eu tô cansada dessa merda
Da violência que desmede tudo
Da minha liberdade clandestina
De ta no meio dessa briga, Chega!*

Porque tem dias em que eu me canso. Chego em casa rouca, as pernas cansadas, a voz brigando por resultado nenhum. Não, é mentira. A gente tem resultados. E é assim que eles germinam: baixinho, em silêncio, crescendo rasteiros na grama do jardim. Em cada olhar sensibilizado, em cada pequena iniciativa de proteção à mulher, à diversidade, à fala da população que é sempre calada pela mídia de massa e pela política perversa de exclusão.

Eles estão sempre lá, os donos do poder. Os Sarneys da vida. Os “macho” usurpadores da liberdade feminina. Os machistas agressores. Os homofóbicos. A voz dominante da opressão aos pobres. Aos negros. A grana suja do tráfico lá no Congresso, e todo mundo fazendo de conta que tá tudo bem, que as drogas devem continuar todas ilegais porque “fazem mal”.

As campanhas financiadas pelas grandes empresas que querem grana, e mais grana, seus whiskys importados no iate na praia, suas mulheres plastificadas de silicone, sua viagem para a Europa arrotando caviar e degustando a elite soberba que sempre cagou na nossa cabeça brasileira. É essa grana mesmo, que cresce e destrói coisas belas. Se ao menos as mães fossem felizes. Mas nem isso. Essa vida consumista é vazia. E a violência contra a mulher existe lá também, no paraíso de praias artificiais com grama sintética e champanhe francês.

Eita!
Que o sangue pinga nas notícias
Vendidas como coisa bela
A merda já tá no pescoço
E a gente acostumou com ela

Aqui embaixo tá foda. Todo dia é uma notícia nova de corrupção, de violência, de morte. Mulheres morrem por abortos clandestinos às pencas, enquanto a grana cala e paga o preço da hipocrisia. Porque lá em cima, na montanha, mulher que aborta não morre e ninguém fica sabendo. Aborto de rica é só uma solução para um problema. Aborto de pobre é crime.

Negrxs apanham por coisa nenhuma. Lésbicas são agredidas por amarem. Gays são espancados por não “falarem como homens”. Trans são agredidas até dentro do próprio movimento feminista! Xs militantes do SUS estão esgoelando que a saúde vem sendo sucateada e vendida à preço de banana e ninguém fala nada. Não, minto de novo. Falar a gente fala, mas a todo momento temos nossos microfones cortados nas grandes arenas decisórias.

A máquina acordou com fome
Vem detonando tudo em sua frente
Comendo ferro, carne e pano
Bebendo sangue e gasolina

Mas eu acredito. Que temos que gritar contra as violências e injustiças. Que temos que nos mobilizar. Que temos que brigar por um mundo melhor. Que temos que denunciar. Que não podemos nos calar. Que temos que juntar nossas forças, parar de atacarmos os aliados, os movimentos tantos que estão despontando com causas diversas de luta, e lutarmos com essa grande lógica perversa capitalista e excludente, branca, machista, homofóbica, elitizada e concentradora de renda, riqueza, bens e outras parafernálias tantas que nos fazem consumidores vazios e desumanos.

É que hoje eu cansei. Vou dormir um sono bom, e voltar com mais energia para as brigas tantas.

*versos da banda Eddie. Eu tô cansado dessa merda. 

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