Eu Fiz Um Aborto

direito_ao_aborto

Eu fiz um aborto. E, não, não foi porque me deu na telha e eu estava sem nada pra fazer e fui lá e fiz. Fiz um aborto no início do ano quando me deparei com uma gravidez indesejada, depois de fazer um segundo exame de gravidez. O primeiro deu um falso negativo. Coisas da ciência, vai entender. Eu poderia citar uns cem motivos para ter feito, mas o que mais importa é esse: eu não queria um filho agora. Simples assim. Ou nem tanto. Muito provavelmente não terei filhos porque não os desejo. Pelo menos, não biológicos. Não passa pela minha cabeça a ideia de gravidez.

Quando eu fiz o segundo exame e, finalmente, deu positivo, eu já sabia o que fazer. Em nenhum momento a minha criação católica bateu forte e eu balancei. Eu estava bem certa do que queria só não sabia, ainda, que essa seria uma das experiências mais marcantes da minha vida. E até hoje não sei precisar se foi boa ou ruim. Sei apenas que marcou a minha história, o meu corpo, e o meu olhar sobre o mundo.

Claro que por ser uma mulher de classe média pude desembolsar mil reais numa tarde. Simples. Fui lá e saquei no banco. Mas em nenhum momento, deixava de pensar naquelas mulheres que não têm o privilégio que eu tive. Quando entrei na clínica, me sentia uma criminosa. Ficava olhando para todos os lados, vendo se não tinha câmeras me filmando. Enquanto conversava com o médico, vivia num mundo paralelo em que a qualquer momento um grupo de pró-vidas junto com a polícia ia entrar pra me prender. Dei meu endereço errado e meu telefone também, por precaução. Sei lá se isso adiantaria de alguma coisa, mas era o máximo de controle que eu podia ter naquele momento.

O médico colocou quatro comprimidos de misoprostol no fundo da minha vagina. Não me deu nenhuma orientação. Eu, que sou feminista, que pesquiso sobre aborto, que participo de debates, escrevo, discuto sobre isso me sentia a mais ignorante das pessoas na frente daquele homem. Uma amiga, que também fez um aborto com ele, foi quem me disse o que eu sentiria. Os efeitos colaterais: a febre, a dor de barriga, o sangramento. Me lembrou de comprar absorventes noturnos.

Eu tive a sorte de estar com meu então companheiro. Ele segurou a onda, me ajudou a pagar o procedimento, comprou absorvente, segurou minha mão e velou meu sono agitado. Sonhei o tempo todo que a polícia invadia o quarto que eu estava e me levava presa. A noite toda. A noite toda.

Só fui sangrar 12 horas depois. Parecia uma menstruação forte, mas nada que assustasse. O pior só foi ocorrer quatro dias depois, quando estava numa cidade de interior com meu companheiro. Tive uma hemorragia no meio do nada e estávamos a uns 200 km da capital. Bom, não morri de hemorragia como vocês podem perceber, mas o médico queria me cobrar mais R$ 3000,00 pra fazer uma curetagem. Eu não tinha o dinheiro e achei um absurdo ele me cobrar isso. Fui para casa sangrando e assim fiquei por uns dois meses. Bom, eu sobrevivi.

Eu sobrevivi. E quando pensamos numa legislação punitiva como a brasileira, eu sei que isso é muito. Jandira e Elizângela não sobreviveram. Elas também pagaram para fazer um aborto clandestino como o meu. A diferença entre mim e elas, aquela que separa a vida da morte, é que eu fiz um aborto em um hospital particular, que oferecia minimamente condições sanitárias. A diferença entre mim, Jandira e Elizângela é que a hipocrisia da classe média me salvou. Eu fiz um aborto onde todas as mulheres de classe média, brancas e escolarizadas fazem. Todo mundo sabe que ali funciona uma clínica de aborto clandestino, mas seus donos são influentes o suficiente para manter-se a salvo da polícia.

Ainda hoje me pego pensando nas possibilidades. E se eu não tivesse dinheiro, e se eu não tivesse descoberto no início, e se eu não tivesse feito numa clínica, e se eu tivesse ido pra um hospital com hemorragia, e se eu tivesse sido presa. Fazer o aborto foi algo que mudou tanta coisa em mim que ainda não sei precisar. Dessa experiência que ainda está sendo significada dentro de mim, eu tenho duas certezas: eu sou uma privilegiada e eu merecia ter feito um aborto seguro e legal.

Apesar de todo o medo que me acompanhou – o de ser presa e o medo da morte, que parecia muito perto em alguns momentos – me sinto uma privilegiada, pois dentro da criminalidade com que o Estado brasileiro joga as mulheres, eu ainda pude escolher. Eu ainda pude pagar por um serviço em uma clínica particular, eu ainda pude contar com uma rede de acolhimento de amigos e meu companheiro na época. Eu pude ir a uma médica particular para tratar do sangramento que durou meses. À Jandira e Elizângela, que já tinham outros filhos para criar, o Estado brasileiro só reservou a morte.

Ainda que me sabendo privilegiada numa sociedade sexista que pune mais as mulheres que os homens, que se recusa a discutir o aborto abertamente como política pública, eu me senti lesada ao fim desse processo. No mundo em que eu quero viver e que eu luto para construir, eu e todas as mulheres que fizeram aborto nesse país, não seríamos criminosas. Eu não teria sangrado durante dois meses e nem elas morreriam de hemorragia e teriam seus corpos queimados. Eu não teria tido tanto medo de morrer, não teria chorado tanto, elas não seriam maltratadas por profissionais de saúde, nós não teríamos medo de ser presas anos depois desse episódio, como as mulheres de Campo Grande. No mundo que eu pretendo habitar, aborto será uma escolha das mulheres. O Estado vai garantir e a sociedade vai respeitar.

cartazaborto

Mais sobre o assunto: Jandira, a vítima já condenada

O Caso da Elisângela Barbosa

Tem uma categoria inteira no Blogueiras feministas pra você se informar: Aborto

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *