Sobreviver

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Sobreviver. Não é para os fortes, não é coisa de herói, nada disso. Sobreviver porque é a única coisa que se pode fazer. Não tem escapatória. A gente sobrevive porque a vida está aí. Batendo na cara todo dia o dia todo. A gente sobrevive só por hoje. Só mais essa semana. Só mais esse mês. Quando vê, isso tudo foi a vida que deu pra viver.

Sobreviver. Apesar de. Da dor que dói furando. Do cansaço. Do choro. Da falta de choro. Da apatia. Do medo. Da incerteza. Da angústia. Da insônia. Do tombo. Da falta de caminho. Da falta de riso. Da falta de amor. Por você mesmo.

Sobreviver. Às pancadas do cotidiano. Às risadas maldosas. Aos comentários ferinos. Sobreviver sem dinheiro no banco. Sem sentido pra vida. Sem planos e nem projetos. Sobreviver sem amor. Por você e pelos outros. Sobreviver com um vazio no peito sem explicação. E tentar dar explicação pra aquilo que não tem nome. Que se desconhece. Que nunca antes na história dessa vida.

Sobreviver. Levantar da cama todo dia com a vontade de se afundar nela. Comer pra tentar tampar o vazio que consome. Beber pra tentar achar resposta pra um mundo de perguntas infindáveis. Trabalhar para pagar a vida. Faltar força até para dar cabo da vida.

Sobreviver. Andar olhando pros prédios altos desejando um piano enorme na cabeça. Olhar para a rua movimentada e pensar num ônibus esmagando o corpo. Querer um corpo sem vida. Outro corpo. Outra vida. Fugir. Na verdade, ser fugida. Um sequestro, uma morte acidental, qualquer coisa que o valha.

Sobreviver. Saber que é preciso continuar. O dinheiro mal paga a vida, não vai pagar a morte. Saber que nada é eterno. Que um dia isso passa, muda, se transforma. Um dia você vai rir disso. Ou não. Vai lembrar com dor desse momento doloroso, dessa eterna agulha debaixo da unha, e saber que ele acabou. Merecer você não o merecia, mas ele veio. Ficou. Se instalou de mala e cuia. Fez estrago, corroeu o amor, a esperança, a fé na vida. Mas você sobreviveu. E sobreviver dói, mas é a única alternativa.

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4 ideias sobre “Sobreviver

  1. Quanto tempo eu passei sem saber o que doía tanto por dentro. Hoje, com 23 anos e terminando a faculdade, eu me sinto velha, porque me sinto sem forças para lutar. Luto desde que eu nasci, sobrevivo desde que nasci. Quando pensava no futuro, pensava em todas as coisas que irei enfrentar, todas as lutas, pensava nos sacrifícios e nada parece interessante.
    Às vezes, me pergunto aonde foi que eu me perdi. Costumava ser cheia de sonhos e feliz. Mas parece que quando coloquei os pés no chão, percebi que nada era do jeito que eu sonhava. Sofri com o machismo, com o racismo, sofri com uma infância e uma adolescência em uma família terrivelmente conturbada.

    Já faz um tempo que eu comecei a melhorar. E descobri que as pessoas tem dores terríveis e que elas falam coisas para te magoar, que elas podem despejar em você todas as inseguranças, que elas podem ser incrivelmente malvadas para se sentirem melhor consigo mesmas, porque, por mais que aparentem o contrário, elas definitivamente não se sentem bem consigo mesmas. Identificar que o problema não é meu, que aquele comentário maldoso feito para mim, na verdade, não é para mim. Comecei terapia e me descobrir, me “auto-conhecer” foi a maior arma contra a parte mais sombria das pessoas. Eu sei o que é verdade sobre mim, eu conheço muito dos meus defeitos, eu conheço muito das minhas qualidades, eu sei o que eu sou e não importa mais o que você disser sobre mim, porque não é bem assim, não é verdade.
    Os sonhos, aos poucos, voltam a brotar. Apesar de clichê, percebi realmente que todas as coisas boas que me aconteceram, eu mereci. Que eu mereço ser feliz, apesar de a vida inteira, ter sido rodeada por pessoas que me fizeram sentir como se eu não tivesse nenhuma qualidade.
    Eu concordo. Sobreviver é difícil. Conseguir passar de sobreviver para viver é mais difícil ainda. E quando finalmente se consegue viver de fato, se manter vivendo é ainda mais difícil. Hoje, eu vivo mais do que sobrevivo, depois de muita dor no peito, depois de muito vazio. As coisas voltam a ganhar cores aos poucos, voltam a ter graça.
    Se você não tem muito amor na sua vida, você pode batalhar para criar um auto-amor. Reconhecer suas qualidades e diminuir o nível de exigência consigo mesmo talvez, as expectativas e o orgulho talvez. Eu passei por isso muitos e muitos anos, e posso te dizer que agora estou aprendendo a viver, e aparentemente tem valido a pena. Nunca achei que fosse dizer isso, mas estou gostando até. De achar graça no cotidiano, de rir de coisas pequenas, e não me abater tanto em relação aos meus medos. Eu observo as pessoas curiosa. As pessoas que me parecem mais vivas, eu as observo com um interesse científico e tento me aproximar delas. Tento aprender como as pessoas vivem, como elas lidam com seus medos, inseguranças, com a falta de amor, tento descobrir o motor que as fazem levantar todos os dias. E aprendo um pouquinho melhor, a lidar com os espinhos da vida, como desviar deles. Procuro pessoas que me fazem sentir bem, mesmo que nossa relação até seja superficial, eu cuido dessa relação, cultivo. Aos poucos, bem devagar, no meu tempo, eu volto a tomar as rédeas da minha vida e a me sentir melhor..
    Eu sei que tudo o que eu falei foi meio clichê. Mas vem funcionando pra mim.

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