Você não tem que saber

Eu não acho que você tenha que saber. Não acho mesmo. Ninguém nasce sabendo, e a gente nasce na sociedade que está aí. Essa aí. Essa das mulheres nas capas de revistas, como pedaços de carne expostos. Essa em que todo dia se mede, se pesa, se julga, se aponta. Essa em que a mulher que não é considerada bonita tem que estar sempre se explicando. Como se não lhe bastasse ser. Como se algo faltasse, como se para ser mulher fosse necessário ser bonita.

Essa sociedade em que, com três mulheres candidatas à presidência, a aparência é questão todo dia. Em que “quem você pegaria das três” é assunto. Não ocorre que talvez não seja algo relevante a ser discutido, quando se fala de candidatas à presidência. Nem relevante, nem necessário, e definitivamente prejudicial. Não ocorre, afinal, “é só uma brincadeira”, “você é que está mal-humorada”. Mal comida, talvez? Logo vi.

Então. Eu não estou dizendo que você tenha que saber. Só estou sugerindo que talvez fosse bom escutar. Pensar. Prestar atenção. Dar importância às falas. Não desprezar, não achar que é fruto da TPM. Pensar nas consequências dela ser, mesmo, esse “ser igual” em que você diz que acredita. Ser igual, no sentido dos direitos. O mesmo respeito. O mesmo espaço. O mesmo tempo para falar. Sobretudo – sobretudo! –  a mesma atenção.

Não “tomar como um dado”. Não achar que algo lhe é devido. Respeitar a diferença, a individualidade, os quereres, os desejos, os limites. Saber que ela é sujeito pleno. Dona de si e da sua própria vida. Perguntar antes, caso seja. E depois, se precisar. Deixar quieto, em certas horas. Aceitar, se for para deixá-la ir embora.

Deixá-la ir embora faz parte, por tantos motivos. Porque ela se apaixonou por outro cara. Porque aquela história não é mais. Porque não tá mais dando pra ficar juntos, embora ainda haja amor. E é isso, aceitar. Chorar no canto, que seja. Chorar sempre, se possível. Se embebedar, ouvir música, estar com os amigos. Ficar sozinho. Mas aceitar. Largar mão. Dar espaço. Recuar.

E cada uma é uma, cada jeito é um, cada história é nova. Não dá pra fazer igual, pra prever pelo passado, pra deduzir o que será. Dá pra tentar aprender algumas coisas, sim. E, talvez, quem sabe, retomar, tentar diferente, começar de novo olhando pelo avesso. Também pode ser.

Mas tenta. Não é fácil. Porque o mundo, esse nosso aqui, moldura, limite, fado, diz o tempo todo diferente. Aí tem que fazer contrapeso. Abrir frestas. Deixar o vento entrar. Jogar idéias velhas fora, sem dó nem piedade. Não, não é tudo ao mesmo tempo. Devagarinho. Um passo de cada vez. Tenta.

Não diz nada ainda.

Espera.

Você vai ver.

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6 ideias sobre “Você não tem que saber

  1. Se eu tivesse que explicar porque esse é um dos textos mais sensacionais de sempre, talvez eu não conseguisse. Posso, apenas, tentar listar o que salta aos olhos: a pertinência, a precisão, a poesia. A promessa. A compreensão. O acolhimento sem condescendência. Gostei imenso. Tão necessário. Obrigada.

    • Ô, flor. Que delícia de comentário, né. Nóis gosta é muito de receber e fica até meio boba… 😉
      Gracias pela leitura e pelo carinho de sempre.

  2. Adorei o texto, Renata! Li agora, acometida de insônia, porque você comentou no Facebook. Incrível como não se percebe que certos comentários são ofensivos para as mulheres, pois já estão naturalizados.

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