Bem Maior

“O maior inimigo do bem é outro bem maior”
(Quevedo)

 Eu sou do time que não espera nem acredita em um bem maior (oi, tem mais alguém aí?). Não acredito em finais felizes, em fim da estrada, em linha de chegada. Não acredito no fim das mazelas, no mundo perfeito, no enfim, em alcançar o horizonte sonhado. Eu sou das miudezas, indo da gentileza de desconhecidos à busca da regulação social crítica e contínua. Sou da busca do melhor possível, agora e já. Pras pessoas do hoje. Acho que a valorização do bem maior pode trazer, junto, a noção de que o que se é feito pra atingir aquele bem, mesmo que machuque alguém no caminho, tá valendo. Bom, eu acho que não está.

E é por isso que sou implicante. É por isso que pergunto, que me pergunto. É por isso que não, não acho que as boas intenções devam ser o meu critério último. É por isso que me apego ao dito. Não ao que a pessoa quis dizer, mas o que ela disse. E porque disse. E a quem disse. E me pergunto e me apego ao como ouvimos. E porque ouvimos alguém e não o outro. E todas essas implicâncias que me fazem parecer mesquinha e tacanha e limitada (e não nego que posso ser – ora, que muitas vezes sou – isso aí mesmo). Porque acredito que a materialidade das relações passa e é ultrapassada pela linguagem (e, dialeticamente, a linguagem é construída na e pela materialidade). Eu não sou condescendente porque eu não vejo a vida melhor no futuro, eu quero que ela seja, hoje e agora, menos dolorida.

Por outro lado (ou pelo mesmo, nem sei), um dos meus compromissos comigo mesma é exercitar um olhar generoso. Um olhar generoso pra mim. Pros outros. Não julgar a pessoa (tem relação com esse texto que escrevi no BiscateSC). O olhar generoso implica em não nomear ou rotular a pessoa. Suas ações, suas ideias expressas, sim, me permito e acho necessário discutir, criticar, mas não limitar a pessoa a isso que fez ou disse ou aparenta. O olhar generoso lembra que somos mais, bem mais que um dos nossos aspectos, mesmo o mais admirável ou hediondo. Nem sempre isso é bem entendido. A gente diz: sua atitude foi machista (ou homofóbica, ou racista, ou transfóbica) e a pessoa entende que estamos dizendo que ela é assim. Cristalizada. Quando a vida é tão dinâmica, né. Não é uma questão de etiquetar, mas de problematizar. E, acho eu, ouvir é sempre um bom negócio. Antes de se sentir chateado, ofendido, antes de retorquir, tentar ouvir. E aquele lance lá de cima: saber quem fala, de onde e tal. Reconhecer que somos socializados pra repercutir opressões é um outro passo necessário, acho. Reconhecer que por mais que a gente se esforce, vamos enfiar o pé na jaca muitas vezes. Reconhecer que por mais que a gente tenha sofrido uma injustiça, uma violência, uma ofensa, isso não apaga ou anula os tantos outros privilégios que temos. Reconhecer que o que nos parece uma resposta desproporcional muitas vezes é a resposta de quem recorrentemente passou e passa por uma situação violenta que repetimos mesmo sem querer. E que não é porque eu “não quis dizer/fazer isso desse jeito” que o que foi dito/feito não ofende, não dói, não machuca.

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Acho que tão ou mais importante que ter em mente a meta é cuidar da estrada e do passo. Olhar pro lado, aproveitar a viagem e as companhias. Curtir os meios. Cuidar deles. Fazer mediações. Parar de vez em quando, revisar rotas, olhas mapas, recriar percursos. Descansar. Celebrar os avanços.

Eu caminho devagar. E, às vezes, paro pra respirar. Errei e erro muitas vezes. Mas vou tentando. Sigo tentando. Porque eu não quero chegar naquele horizonte idealizado, não me submeto ao bem maior, mas acho que caminhar até um encontro no bar da esquina, inclusivo, reflexivo e biscate, é bem atraente.

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