Metamorfoses

Lembra daquele professor de física lá do ensino médio que dizia que alguém muito importante um dia disse que “nada se perde, tudo se transforma?”. Bom, o alguém importante era Lavoisier e o tal professor (ou professora, no meu caso tive uma professora linda, que tinha sido modelo e tal) só queria começar um conteúdo sobre a bendita Lei de Lavoisier.

Bom, claro que o moço francês estava falando sobre a conservação das massas e anyway, mas penso eu que podemos trazer isso para os nossos sentimentos e as relações atravessadas por eles. O Amor, assim com letra maiúscula, quase uma entidade em si mesma, é um tanto estático conforme os contos de fada querem nos fazer acreditar. O amor (esse com letra minúscula, construído todo dia, com seus laços renovados ou, por vezes, esgarçados) muda. O tempo todo. Não amamos as pessoas do mesmo jeito ao longo do tempo. O amor que sentimos pela mãe, os avós, irmãos e irmãs não é o mesmo desde que nascemos e nem poderia ser. O amor muda porque nós mudamos, os outros mudam e o mundo que nos rodeia, idem.

Imagem de Mariana Palova

Imagem de Mariana Palova

Assim também são as relações que construímos ao longo da vida. Gosto sempre de pensar naqueles amigos de infância, da época da escola ou do time de vôlei da rua, ou aqueles primos e primas que te fizeram tão feliz (quando você nem sabia disso), que não encontramos mais. É claro que recordamos com muto carinho deles quando lembramos da nossa infância querida que os anos não trazem mais. (Oi, Casimiro!). E, possivelmente, também temos espaço na memória afetiva dessas pessoas. Mas fico me perguntando se ainda nos amaríamos se convivêssemos hoje. Todos mudamos, e ao longo dos anos, isso é ainda mais perceptível.

Às vezes, penso que prefiro amar essas pessoas com o amor que já está reservado para elas. O amor da saudade, do tempo que faz tudo ficar tão bom, da distância que seleciona as boas lembranças e dá uma mascarada nas partes ruins. Por isso, sempre fujo dos encontros do tipo “turma do pré-alfabetização do Colégio Bosque Encantado”. Muito provavelmente, se nos víssemos com mais frequência, o amor ia mudar e eu prefiro manter as boas memórias.

E aí, me pego pensando nos amores (aqueles mais carnais mesmo) que se transformam em outras tantas coisas. Não acho que quando um relacionamento acaba é porque o amor acabou, necessariamente. Acho que Lavoisier diria assim: “o amor não se perde, se transforma”. Tem amor que vira amizade, tem amor que resta só (?) tesão, tem amor que vira memória. Penso que o amor (ainda o minúsculo) muda o jeito de gostar, mas não perde sua essência quando uma relação se esgota. (Claro que há os que se transformam em ressentimentos, mas isso é assunto pra outro texto)

O amor deixa de ser o amor da paixão, da carne, para ser o do companheirismo, do pega na minha mão e vamos resolver isso. O amor vira bem-querer, muda para aquele sentimento de felicidade pelo outro, de saber que o outro está feliz. O casamento, o namoro, o noivado acaba, mas ainda fica aquela ternura no peito de reconhecer que existe um certo tipo de amor ali pelo que foi, pelo que representou e que, paciência, não é mais.

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