O Que Aconteceu Com Renée Zellweger?*

com a leitura querida
de Patrícia Guedes e Liliane Gusmão

Circularam esses dias uns links sobre a aparência de Renée Zellweger, no estilo antes e depois e a pergunta, em diversos tons, dos mais maliciosos aos bem preocupados: o que aconteceu com ela? Engordou? Emagreceu? Anorexia? Botox? Bronzeamento artificial? Cirurgia? Doença terminal? Drogas? Os comentários nos links não foram menos diretos e não pouparam agressividade e virulência: ridículo, aterrorizante, doente, repulsivo foram termos usados para descrever seus rosto e devastada, mentalmente desequilibrada, enlouquecida, embarangada, plastificada, algumas das palavras usadas – das que tive estômago pra ler – que se referiam a ela integralmente.

Então agora, vou dizer tudo que eu acho que tem que se discutir sobre a aparência dela: (                                ). Pois é, um imenso, enorme, absoluto: NADA.

roda_conversa

Mas, como sou muito legal e para efeitos pedagógicos, vou até responder a inquietação dos mais bem-intencionados: o que aconteceu com ela tem nome. Vida. Em muitos sentidos.

Vida, porque é uma mulher de 40 e tantos anos que tem uma doença de pele (rosácea), que usou bastante maquiagem dados seus compromissos profissionais, que se expõe a forte iluminação artificial por causa das filmagens, uma mulher que engordou e emagreceu várias vezes por motivos vários – inclusive de trabalho. Vida porque é razoável supor que ela riu, chorou, teve dor de cotovelo, passou alguma noite em claro, divertiu-se, pegou sol, pegou brisa. Então, vida, ou como costuma ser apelidada: tempo.

Mas vida, também e principalmente, porque o que lhe aconteceu é o que tem nos acontecido, a nós, mulheres, por todo o tempo que passamos nessa bagaça: somos observadas, julgadas, avaliadas e rotuladas. O corpo, o rosto, a “moral” sob uma enorme lupa. Uma série de “tem que” dos quais é difícil escapar (e nunca sem alguma marca), inscritos na estrutura e que, no máximo, nos é apresentado como uma luta individual. Autoestima, amor próprio, ser mais independente… uma dose especial de crueldade tomar como responsabilidade pessoal um problema social que se espalha na cultura.

Essa lupa enorme e constante não deixa escapar nada. A mulher está sempre errada. Caso se submeta ao padrão (olha aí, não sabe envelhecer, tá usando botox; tá magra demais,deve ser anorexia) e caso o ignore (devia ter vergonha de ir a praia mostrando as pelancas; olha já dá pra ver cabelo branco, é muito desleixo). Uma mulher TEM QUE manter-se jovem, mas, atenção, não pode aparentar estar querendo se manter jovem. Tem que ficar jovem sem esforço e aí, se envelhecer (risível usar o “se” pois viver é sempre “quando”) desaparecer. Sabe coméqueé, velhice é feio, não é pra expôr assim.

Li um bocado de comentários dizendo que ela não soube envelhecer com dignidade, como se houvesse um jeito correto de viver, como se a uma mulher – especialmente famosa – não houvesse pressão sobre a aparência, como se não vivêssemos em uma cultura que glamouriza a juventude, como se não houvesse menos papéis nos filmes para mulheres maduras, como se não fôssemos bombardeados diariamente com a relação entre aparência jovem e saúde. Como se “envelhecer com dignidade” fosse um caminho reto individual sem relação alguma com contexto sócio-histórico. Como se, especialmente, pudéssemos julgar como alguém deve viver sua própria vida. Alguém, claro, uma mulher. Esse animal público.

O fato é que nos sentimos no direito de avaliar e emitir impressões sobre a aparência das mulheres. Isso está tão naturalizado que nem nos questionamos sobre. Como se o corpo e o rosto da mulher existissem para o olhar dos terceiros e devessem a ele corresponder, agradar, submeter-se. Mesmo as pessoas que solene ou alegremente entoam: “meu corpo, minhas regras” às vezes escorregamos e estamos lá, dando nota mental pro corpo da coleguinha.

Então não, não devia interessar a aparência da Renée. Renée não existe pra enfeitar a vida de ninguém. Nenhuma de nós, aliás. Mesmo que você esteja falando com a melhor das intenções e super preocupado com a saúde dela, é bom prestar atenção no pronome possessivo. O corpo, a saúde, a aparência, tudo DELA. No lugar de apontar dedos pras coleguinhas, talvez seja melhor a gente desconstruir esses padrões que oprimem, machucam e demandam de todas nós um dolorido impossível. E, no “por enquanto” dessa demorada mudança de paradigma, todas as vezes que pensarmos em comentar a aparência de alguém – especialmente uma mulher, mais ainda uma mulher envelhecendo – vamos contar até 10. De preferência, em biscatês (um rala e rola, dois rala e rola, três rala e rôlas, OPS…). Distrai e faz sorrir.

PS. Não que cada uma de nós não tenhamos autonomia ou discernimento, não que sejamos conduzidas, moldadas e forjadas apenas pelo ambiente. Não. Mas ignorar esses fatores é cruel e deturpa o olhar. Não custa lembrar do Graciliano Ramos: “liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”

PS2. Não por acaso a pergunta “o que aconteceu com Renée” leva-nos ao filme “O que aconteceu a Baby Jane” e à discussão sobre fama e aparência.

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8 ideias sobre “O Que Aconteceu Com Renée Zellweger?*

  1. pra mim a frase chave é essa aqui “Uma mulher TEM QUE manter-se jovem, mas, atenção, não pode aparentar estar querendo se manter jovem” – a gente cobra, cobra, cobra, daí qd a pessoa vai lá e toma as providencias cirúrgicas, dietéticas e tal, fica todo mundo horrorizado “nossa, mas ela fez cirurgia????? ela tá usando isso tudo de base????? ela tá tão magra que parece que vai sumir!!!”
    uai. não era isso que a gente tava cobrando, que o mercado tava cobrando?
    Ou (e isso me mata) “Essa NAO é a Renee! A Renee é essa daqui” (daí bota uma foto da fia de 20 anos atrás, pq né). Te amo, Lu, como tão seus zói?

  2. Gostaria de abrir espaço para uma discussão, outro dia li uma matéria legal que a mulher deve ser o que ela quiser. Pode ser peluda, malhada, lésbica, tatuada, dar pra quem quiser etc. Concordo com tudo.

    Porém logo no dia seguinte vi o caso da Renée e tentei colocar a leitura da ideia do primeiro texto no caso dela. E pensei vivemos num mundo onde existe um padrão, porém será que a necessidade de alcançar esse padrão, seja exatamente um problema que resulte em casos como esse ?

    Vou citar o caso da Kim Novak que é mais gritante, é fato que todas as transformações a deixarem transfigurada, ok a vida é dela. E se ela gostou do resultado, melhor ainda. Mas… até onde podemos considerar saudável chegar?

    • Luiz,

      acho que quanto à primeira questão que você colocou, sobre se a necessidade de alcançar um padrão de beleza gera problemas, a posição nesse texto e nos linkados é clara: há problemas sim, mas é existir o padrão que é o problema que deve ser combatido e não as ações das mulheres para alcançá-lo. A segunda questão é simples: nõs não temos que considerar nada sobre as opções das mulheres em relação ao corpo delas. Não interessa se é saudável. Não interessa se é bonita. O corpo é delas. A escolha é delas.

      • Gostei da resposta =) Valeu.

        Interessante ver que apesar de eu sempre me esforçar para evitar o machismo ele sempre acaba ficando escondido sem nem percebermos. Como você disse “Não interessa se é saudável”. Provavelmente seria uma questão que nunca me passaria na cabeça caso estivesse relacionado a homens.

        Abraços. Lerei outros posts quando tiver tempo.

        • Luiz, obrigada pela interlocução. Nenhum de nós tá isento, né? A gente vez ou outra enfia o pé na jaca porque, todos, sem exceção, somos determinados e determinantes dessa estrutura. inclusive, identificando um escorregão nosso, avisa, a gente agradece 🙂

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