Uma cena de amor quase anódina

Era uma pessoa muito próxima. Querida. Muitos amigos ela tinha. Já de certa idade. Generosa, alegre, casa aberta, sempre pronta a ajudar os outros. Presente, cuidadosa, preocupada. Afetiva.

Não lhe sabia de amores. Nunca a tinha visto com ninguém. Não se falava disso, e pra mim estava bem assim: afinal, podia ser escolha. Ninguém é obrigado a ter alguém. Ninguém é obrigado a pavonear suas histórias, suas paixões, seus rolos na frente dos outros. Ainda mais na geração dela, em que isso não era assunto tão conversado.

Até que um dia, passeando na cidade, encontrei-a. E nem teria notado nada, caso ela não tivesse estremecido e soltado a mão da outra, antes de me cumprimentar. Mas estremeceu. E soltou.

Saí dali com isso na cabeça. Que passear de mãos dadas, uma atividade tão anódina, virava, por conta de restrições sociais, de “certos” e “errados”, algo com que se preocupar. Até comigo, imaginem. Até comigo. Imaginem não poder abraçar, beijar, dizer que ama. Dizer “minha namorada”, dizer “minha mulher”. Logo ela, tão querida, tão afetuosa, tão generosa.

Uma nuvem passou diante do sol.

Droga de mundo em que não se pode andar de mão dada com quem se quiser. Que pede contas de amores de uns e de outros, atestados, carimbos, definições. Droga de mundo que fica regulando amores e mãos alheias. Em que uns podem, mas outros não. Em que os outros se incomodam com os amores e as mãos dos uns. Com os corpos, com os afetos, com os jeitos e trejeitos. Com os gostos, com as escolhas.

Droga de mundo.

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