Vês! Ninguém assistiu ao formidável

No último domingo, 28/09/2014, assistimos ao vivo, em cadeia nacional de TV o que talvez tenha sido a maior expressão de desrespeito pelo humano da nossa história recente. As declarações do candidato à presidência Levy Fidélix sobre a legalização definitiva do Casamento Homoafetivo deixou incrédulos atônitos, cépticos desconcertados e militantes destroçados. E foi “formidável”!

Pra quem não assistiu, o vídeo está aí, se forem capazes da ousadia de apertar o play.

Digo formidável por não encontrar palavra que melhor caiba ao assunto. Quase quimérico, fabuloso (no sentido de “saído de uma fábula”, embora alguns animais se recusassem a dizer aquelas palavras se pudessem falar), o espanto geral, dizem, derivou de ninguém ser capaz de reagir simultaneamente a tal discurso, não importa o motivo.

Porém, eu digo, isso aconteceu justamente pelo fato de não ser nossa praxe reagir ao “formidável”. Diariamente, a grande maioria da população LGBT* no nosso país ouve calada esse tipo de discurso envolto em risos, palmas e outras formas de aprovação e nós continuamos a não falar. Esse problema é nosso! Nós estamos convalidando a continuidade desse tipo de coisa.

by Bosh (via @perfunctorio)

by Bosh (via @perfunctorio)

Temos que dar a cara a tapa! Dizer que o “espanto” vem do fato que seria inimaginável um candidato à presidência, em pleno 2014, usar abertamente desse tipo de discurso é simplesmente negar o cotidiano e tentar dar uma aura de “especialidade” ao fato. NÃO! Não há nada de especial no discurso do Fidélix!

Esse discurso é o que ouvem diariamente jovens ao acordar em um família conservadora e que não os aceita. Esse discurso é o que ouvem pessoas que passaram a vida inteira reprimidas por suas religiões enquanto tentam manter sua crença, as vezes o único consolo, firme. Esse discurso é aquilo que se propaga diariamente nas piadas infames que vitimiza transexuais, lésbicas, bissexuais e homossexuais e que sai da boca de “pessoas de bem” e das próprias vítimas desses discursos, seja por homofobia, misoginia, falta de aceitação, medo (sim, porque o terror imposto por muitos armários provoca isso) ou simples costume.

Friso isso, pois não é pra causar espanto que esse tipo de discurso ganha força numa campanha à presidência da república. É para justificar atitudes! É pra justificar a falência de uma sociedade que tornou-se incapaz de entender e aceitar o outro. É para deslegitimar a luta cada vez mais esvaziada e inócua por cidadania do ser e não do ter.

E quando coloco isso como “nosso” problema, não estou falando da militância. É nosso problema como sociedade! Pois é formidável como, com isso, o que perdemos não tenha sido apenas o senso de democracia, a noção de igualdade ou qualquer mostra de alteridade.

O discurso do candidato à presidência da república Levi Fidélix é a prova da nossa anulação como seres humanos, como humanidade.

E deixo em destaque essa frase pra chamar a atenção para o que talvez não seja tão óbvio: o primeiro passo para o extermínio é a desumanização. Coisificar o ser humano, suas vontades, seus anseios e suas lutas, já disse Hannah Arendt, é o primeiro passo pra justificar sua desnecessidade e sua possibilidade de inexistência. E disso a nossa sociedade já pode se gabar. Demos o primeiro passo ao formidável, ao enterro da nossa última quimera, à ilusão de que éramos uma sociedade capaz.

+ Sobre o assunto:

[+] Vandalize o discurso de ódio nas eleições! (escrito em parceria com a coordenação do Blogueiras Feministas)

[+] A homofobia de Levy Fidelix doeu tanto quanto o silêncio dos candidatos

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