Aborto e Solidariedade

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

solidariedade

Imagine um país onde nós, mulheres, fôssemos proibidas de parir. Agora imagine um onde nos obrigam a fazê-lo.

Quando eu tinha uns 21 anos uma grande amiga da época engravidou de um rolo e decidiu abortar, me pediu apoio e…refuguei. Eu era espírita e espíritas, como vocês sabem, não apoiam o aborto, pedi desculpas a ela, disse que entendia, mas não poderia ajudá-la porque não podia compactuar com aquela atitude. Depois soube por outra amiga que tudo correu bem. Até hoje me recrimino pela minha covardia. Tive medo do fogo do inferno, na verdade. Ok, para espírita não há fogo no inferno, mas nas minhas centenas de leituras espíritas pessoas que abortavam ou mesmo apoiavam eram perseguidas espiritualmente, obsidiadas. Pois é, tive medo de encosto, como se diz no popular.

A decisão do delegado responsável pelo inquérito sobre a morte de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de indiciar por “apoio moral” o ex-marido e uma amiga de Jandira tem por efeito sobre a já escassa rede de apoio das mulheres que decidem abortar o mesmo, ou pior, que os livros espíritas tiveram sobre mim: o fogo do inferno. Na verdade pior: a cadeia.

Já conversamos centenas de vezes que nenhuma mulher decide facilmente sobre o aborto, que essa decisão só a ela pertence. Mas raramente falamos como é importante o acolhimento para a mulher que decide abortar. E é esse o golpe mais baixo sobre as mulheres que se deu agora, sobre a sua rede de apoio, sobre o acolhimento, o amor que ela precisa num momento tão difícil.

Nós, feministas, estamos a duras penas tentando livrar as mulheres que decidem abortar de julgamentos morais e religiosos duros externos já que muitas vezes elas mesmas afligem a si mesmas esses julgamentos por terem sido criadas nessa cultura. É muito cruel e desumano na hora do desespero julgar alguém, como amigas e irmãs, podemos somente acolher (e é por isso que não me esqueço da minha atitude mesquinha). Mas aí vem um delegado e aflige toda a cadeia de apoio das mulheres com o medo. Isso é cruel, mesquinho, desumano, hipócrita. E pior, é querer tomar para si o papel de julgador supremo.

O aborto não legalizado no Brasil já é uma legislação anacrônica, uma vez que em vários países ele  já é permitido faz tempo e condenar as pessoas que acolhem a mulher é mais anacrônico ainda. Mesmo a denúncia não tendo sido acatada pelo Ministério Público, quantos aos amigos e familiares, o mal já está lançado pois a propaganda está feita e nos sabemos o quanto nos custa todo dia desfazer coisas do senso comum tais como: “só engravida quem quer”… mas nós, rede de apoio, não podemos esmorecer ao medo, temos é que nos unir e nos ajudar.

E por fim, se a sua questão com o aborto é religiosa ela é exatamente isso: sua questão e você decide. No entanto suas crenças religiosas, por mais que te façam bem, não podem ser estendidas por decreto a outras pessoas que delas não compartilham sob pena de um pretenso ato de amor e proteção ao próximo ser exatamente o que é: arrogância e prepotência. Ao passo que religiosidade é amor, tolerância e paciência. Não julgue, não condene, ao contrário, ame e acolha, cada qual como é.

PS: não responderei comentários do tipo ahhhhh é a minha/ família/namorada/esposa/cachorro/gato/periquito/papagaio etcetc e eu/ela/ele faço/faz como eu quiser/Deus quiser porque estaremos voltando ao terreno do EuEuEu e aí você faz o que quiser e puder, colega. O que se propõe no texto – mais uma vez- é não a subjugação do outro pelo seu eu, mas a solidariedade, o acolhimento do próximo, no caso a mulher. Abraços.

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