A mulher negra, o aborto e a solidão

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento. Grande parte dessas mulheres são negras. Por isso, convidamos a ouvi-las. Por isso a convidamos a falar.

#AbortoSemHipocrisia

Por Nathalia, BiscateConvidada

“Aí ele disse “aqui, eu trouxe, quero ver se você vai tomar”, e pegou a pistola “se você tomar, eu dou um tiro em você”. Aí eu disse “você não dá não, porque se você quisesse que eu não tirasse esse menino, você não tinha trazido, você não quer criar o menino”. (Nega, 26 anos, negra e pobre).

Nega é uma das jovens que participaram da minha pesquisa de mestrado. Entrevistei 10 jovens, cinco brancas e cinco negras, sobre suas experiências com o processo de aborto. Não pretendo aqui expor cientificamente a questão. Quero apenas demarcar a violência, a dor e os silêncios vivenciados pelas mulheres negras no aborto. Eu poderia dizer simplesmente que as mulheres negras, jovens e pobres são as que mais morrem devido ao aborto clandestino. O que é uma verdade irrefutável. Entretanto, parece que esse dado não é suficiente para sensibilizar as pessoas acerca da necessidade de legalizarmos o aborto no Brasil. Por isso destaco um trecho da entrevista de Nega, para mostrar que antes de morrerem e/ou adoecerem, as mulheres negras, na maior parte dos casos, passam por uma tortura psicológica bastante específica. Elas precisam enfrentar a violência e o abandono do parceiro.

O retrato das condições de vida das mulheres negras é bastante cruel. Basicamente, nós mulheres negras, estamos locadas nas posições mais vulneráveis e representamos os piores indicadores sociais do país. O racismo e machismo relegam as mulheres negras a enfrentarem maiores dificuldades no momento de realizar o aborto. Além da dor, do medo e do estigma, Nega precisou enfrentar uma arma apontada na sua cabeça pelo seu próprio parceiro no dia em que realizou o aborto.

Na minha pesquisa de mestrado a maior diferença que identifiquei entre mulheres brancas e negras no processo do aborto é o apoio do parceiro. As mulheres brancas relatam mais a presença deste do que as mulheres negras. Estas últimas narram processos de abortamento solitários, longos e dolorosos. A violência é uma constante. Desde a descoberta da gravidez até os cuidados pós-aborto. Ressalto também que as mulheres negras são as que mais recorrem aos serviços de saúde para finalizar o procedimento. Sofrem sozinhas as violências cometidas também pelos profissionais da saúde.  As mulheres negras têm o tempo médio de espera para serem atendidas nas unidades de saúde maior que o das mulheres brancas e também são elas as que mais precisam retornar ao serviço de saúde para refazer a curetagem[1].

Em 2011, trabalhei em três maternidades do Recife e pude acompanhar um caso muito doloroso de uma jovem, chamada Amanda. Ela recorreu ao serviço de saúde devido a um aborto retido[2]. Era uma jovem negra da periferia e chegou sozinha e sangrando na maternidade. No Centro Obstétrico pudemos conversar. Eu perguntava se ela sentia dor. Mas Amanda me respondia que só sentia frio e medo. Antes de entrar na sala de cirurgia para fazer o procedimento de curetagem, Amanda me olhou e disse: “você entra comigo, por favor? Eu não quero mais ficar sozinha”. Ela desenvolveu uma infecção e precisou passar mais de uma semana no hospital. Depois de cinco dias internada apareceu uma amiga e vizinha para trazer roupas e objetos pessoais. Durante os mais de sete dias que acompanhei Amanda, em nenhum momento ela comentou sobre o parceiro. Era como se ele não existisse. Oras, mas todas nós sabemos que uma mulher não engravida sozinha. Um homem se livrou de toda a sua responsabilidade. E também se livrou de toda a criminalização e dor que envolve esse processo.

A criminalização do aborto aumenta o abismo social entre as mulheres; mata e tortura as mulheres negras. Funciona como uma poderosa estratégia de perpetuação do racismo, espoliando os direitos humanos das mulheres negras. O Estado Brasileiro segue mantendo uma legislação classista, machista e racista. A sociedade legitima essa violência, o parceiro continua na sua zona de conforto inocentado. E as mulheres negras continuam cravadas pelo sangue da hemorragia, da hipocrisia e da solidão.

 [1] Procedimento de esvaziamento da cavidade uterina muito utilizado para finalizar o procedimento do aborto.

[2] Aborto retido é aquele em que o corpo não consegue expulsar o tecido fetal, causando infecção para a mulher.

imageNathalia é assistente social, mestra em psicologia, feminista negra e integrante da Marcha Mundial de mulheres.

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