Agrada, mas não satisfaz

por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

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Não nos conhecíamos, mas nos reconhecemos como duas pessoas que gostam de sexo. Estávamos há pelo menos meia hora numa disputa onde os corpos ficavam bem encostados e os lábios muito próximos. No confronto de olhares, um mais direto e o outro se fazendo de bobo – mas foi ele mesmo que fez o gesto: correu a boca pelo meu pescoço, arrastou os lábios, os dentes e um gemido na orelha. Cedi, como não, e mergulhei para provar a boca carnuda que me desafiava com malícia. Passamos a tarde perdidos nesses novos sabores, em línguas afoitas, dois cegos se identificando.

No início da noite um pequeno descanso, um lado a lado silencioso e ofegante. Mas depois de insinuados os caminhos, eu já queria mais, mais beijos, bem quentes. Queria o outro se contorcendo, gemendo baixinho, respirando mais fundo, entregue às minhas mãos. Você quer? Sim. Eu conheço um lugar. Sim. Agora? Sim. Aqui? Sim. Os outros mesmos beijos e roupas que se empilhavam no chão. Nessa alternância de desbravamentos, uma insinuação de força nas mãos que usei pra empurrar seus ombros em direção ao colchão. Meio riso, meio tesão, ele deitou e se deixou como brinquedo novo pra diversão alheia. Sentado no seu quadril, olhos fixos naquele rosto relaxado, eu me esfregava enquanto decidia o que fazer. Com a outra mão, alisei seu peito, belisquei mamilo, escorreguei pelo braço até encontrar sua mão. Sem desviar o olhar, entrelacei os dedos e puxei em minha direção. Lambi a palma, entre os dedos, mordisquei e chupei, firme, o dedo médio, como convite ou promessa. Ele gemeu e tentou levantar o corpo. Neguei espalmando as duas mãos no seu tórax. Fica aí. Ele ficou.

 Mordi seu ombro sem força e deixei a língua molhar seus pelos até o umbigo. Pequenas contrações na barriga denunciavam os desejos, não sei bem se dele ou meus. Descobri seu pau, ainda não intumescido. Sem aviso nem preparo, enfiei-o inteiro na boca e lá o deixei, quieto, sem movimentar língua nem bochecha, apenas lá, enquanto minhas mãos deslizavam pra baixo, levantando-lhe o quadril e apertando com força sua bunda. Paciência, paciência e o pau, em espasmos, esquentou e cresceu entre meus lábios. Satisfeito, deixei que escorregasse pra fora da boca e passei a alternar mão e boca. Lambi desde a base, chupei só a cabeça, enfiei o saco na boca e fiquei chupando com ritmo enquanto apertava ora de leve ora com força. Mordi entre as coxas e suguei. Um tantinho descontrolado, segurei com mais vigor antes de colocá-lo inteiro dentro da boca. Estava gostando tanto de sentir aquele volume entrando e saindo que poucas vezes olhei para o rosto do dono do pau. Estava dominado pelo anseio de saboreá-lo. Meu corpo enrijecia e se movia como um espelho do prazer que ele parecia sentir. Seu quadril se mexia como a indicar o que, quando e como. Ali, mais forte, agora. A minha boca antecipava o quase. Quase nada se ouvia além do deslizar úmido do pau no movimento que já não era meu nem dele. O tempo. E o alerta: vou gozar – enquanto puxava meu cabelo com força, afastando minha boca e me obrigando a ver seu rosto meio distorcido enquanto o esperma quente escorria. Como um desafio a mais, lambi enquanto segurava seu pênis entre as duas mãos, acolhendo enquanto amolecia o tesão. Um cochilo, penso. Mas ele me puxa pra cima, me vira de bruços, monta e sussurra no ouvido com a cara mais cínica e toda a sua sinceridade peculiar:

– Agrada, mas não satisfaz.

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bia Cardoso teve uma curta carreira de escritora erótica entre 2005 – 2007. Esse texto é dessa época, quando ela ainda nem pensava no gozo de hoje. É autora do Groselha News e pode ser encontrada no twitter como@srtabia.

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