Dar no Primeiro Encontro

Vira e mexe e pula na nossa cara uma questão tão, mas tão tosca que, aparentemente, nem deveria ser discutida: a mulher deve dar no primeiro encontro? A minha tendência é fazer tsc, tsc, dar de ombros e prosseguir. Mas, né. Ela volta tantas vezes que me parece um sintoma. Vamos conversar, então.

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Pra mim, o problema desse problema é que ele é um falso problema. Só pra começar, como disse Lacan, “a mulher não existe”. Opa. Estou falando do quê? Estou falando que a pergunta começa equivocada. Quando dizemos “a mulher deve dar no primeiro encontro” estamos tratando um grupo heterogêneo como se assim não fosse. Que mulher é essa? Mulher é uma mulher negra hiperssexualizada no imaginário, mulher é uma mulher trans contestada em sua identidade, mulher é uma mulher gorda que socialmente é lida como insatisfeita e incapaz de atrair alguém, mulher é uma mulher adolescente curiosa, mulher é uma mulher velha que não faz sexo já há uns anos porque a sociedade grita que seu corpo é feio. A qual dessas mulheres a questão se coloca? Você pensou em qual delas quando leu a pergunta? Provavelmente em nenhuma, não é? Essa pergunta é dirigida e traz, subentendida, a mulher branca, cis, jovem, heterossexual, magra. Para as outras a resposta é compulsória.

A pergunta prossegue e o erro se acentua: “a mulher deve dar no primeiro encontro?”. Ora, eu penso que não é apropriado usar o verbo dever em relação a práticas sexuais. Uma mulher, qualquer mulher – as que estão ou não nas entrelinhas da pergunta – nenhuma mulher, repito, deveria fazer nada sexual que não seja do seu desejo. A pergunta tem essa pegadinha, né? Parece estar oferecendo opções: dar ou não em situação X, mas está apenas reconfigurando as amarras. Passamos do mulher direita não deve dar antes do casamento para a mulher liberada (ou moderna ou whatever) deve dar no primeiro encontro. Sorry, mas trocar uma obrigação por outra não parece um cenário atraente.

E a pergunta finaliza com outro elemento dúbio: “a mulher deve dar no primeiro encontro?”. É uma incógnita a que se refere esse termo: primeiro encontro. Do que se trata? De sair pra o aniversário de uma amiga, ser apresentada ao primo dela e de lá, depois de muita conversa e uns bons drinks ir pro motel com ele? De ir pra uma balada, esbarrar numa mina gostosa, dar uns amassos no dark room e lá mesmo aproveitar e transar? De conhecer alguém naquela pós que está cursando, sair muitas vezes em grupo e um dia receber um convite pra jantar em dupla? Tem gente que a gente passa por ela um monte de vezes e aí um dia, pá, o estalo. Foi o primeiro ou o vigésimo encontro? Tem gente que a gente tem na rede social, mas nunca viu até que um dia, uma viagem, um café, é o primeiro encontro? As conversas todas antes foram o quê? Contam como?

Então, tá, Luciana, entendi, não tem regra pra toda mulher, não é uma obrigação e esse negócio de primeiro é meio confuso porque o tempo é uma variável que se qualifica em relação com várias outras, mas e você, quando é que dá? Ué, eu dou quando o outro quer e eu quero. E posso querer mal nos apresentamos no bar sem nunca termos nos visto antes como posso querer depois de longa convivência e muitos momentos em comum. Não tem hora certa, não tem a priori, não tem regra – pra mim. Porque cada pessoa com quem estou é única e cada relacionamento (porque é um relacionamento, dure seis horas ou dez anos) é o que a gente faz dele.

O que eu faço é me abrir. Me permitir. Olhar e ouvir. Receber. Deixar o tempo para além do relógio, o tempo do encontro, operar as aproximações. O que eu faço é acolher meu desejo, deixar a mão na outra mão, a perna encostar na outra perna, o olho mergulhar no outro olho. O que eu faço é deixar a voz deslizar pela orelha como um afago e arrepiar a nuca. O que eu faço é saber se a pele esquenta e se o olho brilha. O que eu faço é inventar o meu próprio pecado e morrer do meu próprio veneno.

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