Mulheres rodadas: quem tá nessa roda?

Por Larissa Santiago*, Biscate Convidada.

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Essa semana, a poderosa internet nos agraciou com uma imagem que já era piada pronta: depois de ouvir os Bolsonaro da vida falar que a Dep. Maria do Rosário não merece ser estuprada, vimos um homem cis branco e [provavelmente] hetero exibir orgulhosamente um cartaz que diz: “Não mereço mulher rodada”.

Não me surpreende em nada essa declaração machista, depois de ter notícia da última pesquisa divulgada no Fórum Fale Sem Medo que aponta que 51% dos jovens defendem que a mulher tenha a sua primeira experiência sexual somente em um relacionamento sério; 41% afirmam que a mulher deve ficar com poucos homens; 38% garantem que a mulher que fica com muitos homens não serve para namorar e, difícil de acreditar, 25% dos jovens pensam que, se usar decote e saia curta, a mulher está se oferecendo.

Ora, a juventude aponta que a sociedade é machista e sexista e suas respostas corroboram com seus atos, justificando assim a dinâmica da sociedade patriarcal. Estamos falando de liberdade sexual e direito aos corpos também, e fica claro com essa pesquisa que a sociedade ainda acha que é ela quem manda nas mulheres.

Precisamos ter o aval de homens e instituições para resolvermos se queremos ou não nos relacionar, sair, transar. E seja lá qual for nossa “decisão”, teremos ônus.

Mas o que eu quero destacar nesse texto, além do machismo evidente, se resume a pergunta: De qual mulher estamos falando?

Fechem os seus olhinhos e imaginem a mulher rodada. Depois me contem nos comentários.

De largada lhes digo que essa mulher rodada tem independência financeira, no mínimo tem alto grau de escolaridade e provavelmente está no hall das “eleitas para um futuro”. Quero dizer com isso que algumas mulheres podem se dar ao luxo de serem rodadas, outras não. E mesmo que não exerçam sua liberdade sexual tal qual gostariam, serão taxadas de ““““prostitutas”””” [com muitas aspas, pois não há intenção de moralismo aqui] e sempre serão hipersexualizadas.

Queremos que ser rodada ou não seja uma escolha nossa, certo? Mas ainda temos os dedos do machismo em riste na cara, dizendo quem pode ser rodada e quem nem se quer pode andar na rua em paz, ou se sentar num bar com amigas de cor sem ser importunada pelos que se sentem no direito de invadir seu espaço e lhes cobrar atenção – e caso não role, ainda saem como as “““““vadias””””” [também com bastaaante aspas].

 O dilema da liberdade sexual atinge as mulheres de diferentes modos, essa é a verdade das coisas. O machismo e o sexismo também. É óbvio que o mocinho se referiu a todas as mulheres quando as quis insultar, mas para algumas mulheres – como essa que vos fala –  ser rodada tem um preço bastante alto e que envolve variadas questões. Isso significa que eu quero abrir mão de ser rodada? Não. Isso quer dizer que eu prefiro o celibato? Muito menos. Só não posso negar o fato complexo que isso, ser rodada ou não, significa na minha vida e na vida de outas mulheres negras. Impossível fechar os olhos para o simples fato de que isso na maioria das vezes não é uma escolha pra nós: está implícito, graças ao machismo, o sexismo e o racismo.

Por enquanto, vamos juntas tentando desconstruir esse pensamento machistinha uó enraizado de que mulher boa mesmo é mulher que não transa no primeiro encontro, de que mulher tem que ficar em casa enquanto uzomi sai com os amigos (vide video da plateia Altas Horas) e que nenhum homem merece (sic) uma mulher rodada.

De verdade? Nenhuma mulher merece essas violências simbólicas e essas baixarias, seja na rua, seja na internet. Estamos todas fartas e isso sim deve estar na roda!

 

larissa*Larissa Santiago é baiana e publicitária.

 

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2 ideias sobre “Mulheres rodadas: quem tá nessa roda?

  1. Olha, me desculpe mas tem um ponto importante no seu texto que eu preciso criticar. É quando você diz que “essa mulher rodada tem independência financeira, no mínimo tem alto grau de escolaridade e provavelmente está no hall das ‘eleitas para um futuro'”.
    Eu discordo.
    Esse é um aspecto em que o machismo e o slut-shaming se manifestam em todos os estratos sociais. Tem mulher “rodada” na favela e no Leblon. E as consequências de exercer a liberdade sexual são as mesmas para as duas. Guardadas as devidas proporções, é claro: a mulher rodada da favela vai ser estigmatizada como puta pobre; a do Leblon, como puta rica.

    • Marcos, acho que você não prestou beeem atenção no ponto que a Larissa ressaltou no texto. Não se trata de ter ou não slut em relação a qualquer mulher de qualquer estrato que viva sua sexualidade livremente. Inclusive, suponho que você concorde, pode haver slut em relação até em relação a quem “vive na linha”. A questão é que pras mulheres negras, por conta do racismo institucionalizado e estrutural, não há a opção de ser ou não rodada, de se assumir ou não rodada. O rodada já está dado, independente do desejo dela e do comportamento individual que ela apresente. O mesmo, acontece, por exemplo, com uma brasileira na europa. Então não, não é o mesmo estigma e não são as mesmas consequências.

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