Por um verão sem padrão

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Aqui vem o verão. E com o verão, exacerba-se o padrão.

O padrão. Os padrões, ah, os padrões. As mulheres são bombardeadas cotidianamente com milhares deles. Padrões de comportamento de “boas moças”. Padrões sexuais. Padrões estéticos. Até padrão para as nossas respectivas bucetas, sim, eles existem , e machucam as mulheres que fogem deles. Machucam tanto, que muitas buscam cirurgias doloridas para modificá-las (veja aqui), para se enquadrarem nos padrões de beleza vaginal. Não, não é culpa da mulher que faz. Não, não vou julgá-la. Sei que dói. Dói estar sendo apontada como diferente. Dói a sensação de não ser aceita. De não ser “bonita”, “desejável”, ou coisa que o valha, perante a sociedade de corpos padrão e beleza consumível em revistas e propagandas de iogurte.

Até as propagandas de cerveja, claro, elas, as piores. Bebam. Eu bebo. Mas mulheres que são desejadas pelos homens cervejeiros não são aquelas que sentam na mesa do bar com eles e se divertem noite adentro, bebendo e gozando a vida. São aquelas do corpo padrão academia-barriga-de-tanquinho e bumbum durinho, que provavelmente sofrem ao tomar o terceiro copo, porque né?

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Barriga de cerveja é algo repugnante. Mulheres que vendem cerveja não são aquelas que bebem cerveja sem culpa, com prazer, degustando e sentindo-se feliz com sua barriga saliente de mesa de bar. Não. Não pega nem bem. Porque mulheres são objetos de desejo. E nessa sociedade consumista e padronizada, mulher desejável não pode ser feliz como é. Ela tem que se enquadrar, o tempo todo, no peso “certo”, no corpo “bonito”, no cabelo de revista, na pele sem manchas e sem olheiras, na vagina “certinha”, no bumbum malhado, na barriga delineada, no comportamento adequado, nisso, naquilo e naquilo outro. Padrão machista. Fetiche machista. É isso que a gente vê  por aí.

Auto estima babe. E auto estima não é algo fácil. Nós, mulheres, estamos a todo tempo enfrentando esse grande espelho social que nos tolhe e nos oprime. E temos que quebrar esse espelho. Não, não é fácil. Mas é possível. Porque não podemos mais aceitar esse espaço comprimido de beleza. Essa saia justa para nossas pernas grossas. Esse espartilho que sufoca nossa respiração. Saúde e bem estar não pode ser confundido com o manequim 38. E nós temos que brigar, sempre, pelo direito ao prazer. Para sermos felizes como somos. Pelas nossas barrigas serem sinônimo de desfrute, degustes, alegrias, e não choros escondidos e vômitos provocados no silêncio de depois.

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Não é fácil estar acima do peso, olhar as rugas, ver pular os cabelos brancos, ouvir as fofocas: “nossa como ela engordou”. E eu me coloco dentre essas tantas mulheres que, sim, vez por outra também sofre. Sofre o olhar social, o julgamento, o não enquadramento como “bela”. Outro dia ouvi, num ato falho da minha própria mãe: “é que filha, você ERA tão linda”. É, uma mulher acima do peso não é linda. Ela, né? Pode até ter sido, ou vir a ser. Mas não é. Ou, a pior frase: “ela é uma gordinha bonita, tem o rosto bonito!”. Essa me dá vontade de agredir de volta. Mas me contenho, e milito. Militemos por esse processo de desconstrução.

É, sim, é preciso um processo de desconstrução, começando por nós mesmas. É ver-se por dentro. Olhar a saúde de outra forma, mais associada ao bem estar e à felicidade. É ver que o padrão é falho. Que está todo mundo atrás de algo que nunca se alcança. Que a beleza imposta à mulher é capitalista, cheia de produtos, plásticas, malhações infinitas, estéticas de consumo. Que é machista, que escraviza, que nos enche de culpa e que ofusca os olhos da alma, que são aqueles que nos enchem de sorrisos por dentro, independe de. Já dizia Vinicius: “uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”. Eu digo: uma mulher não tem que ter nada. Ser, viver, ser feliz é essa beleza toda. A beleza de existir, cada qual no seu universo.

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Ano passado eu, que tenho um problema crônico de tireoide, fiquei hiper, com hormônios a mais. Meses de insônia, taquicardia, tremedeiras, ansiedade. Emagreci muito, 7 kilos em 2 meses. As pessoas me falavam: “nossa, como você está bem!”. E eu pensava: “Não, eu não estou bem, estou doente”. Regulados os hormônios, engordei tudo de novo, e mais um tanto. Voltei a comer, a dormir, a estar bem. Kilos e sorrisos a mais, saúde em dia e felicidade de poder ficar onde existe prazer. Magreza não é sinônimo de saúde. A cultura da magreza é a cultura dos padrões e metas, ditadura da estética, nem sempre feliz.

Corpo perfeito é o que a gente tem. E eu sempre prefiro a felicidade. Por menos imposições, e mais prazer…sigamos!

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