Reticências, cachecol e morte

Está lá, na marca dos dentes. Uma marca funda, um roxo. Um chupão. Meu pescoço. Tive que usar cachecol. Não devia. Não só pelo calor. A gente não devia esconder essas marcas… Lá naquela mordida fomos, estivemos, nascemos. E morremos. A gente anda com receio deste ser, estar, nascer… morrer.

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Sempre tem um texto que compara o orgasmo a uma “pequena morte”. Naqueles doze segundos, ou treze, catorze ou onze, que antecedem tua morte eu gosto de notar aquele ar rarefeito, aquele instante onde pelos improváveis se eriçam. Aliás, gosto dos sinônimos de eriçar… arrepiar, hirto. Ereto, como as pontas hirtas dos sexos, meu e teu. Gosto de notar teu bigode suado, buço. Me lembram hormônios, calores, sabores. Não deviam deixar que os amantes tivessem que correr, nunca. Aquele abraço com cheiro de sexo e a eternidade combinam tão bem, como engate, encaixe, língua, toque, dedo, falo, vulva, cu e heresias múltiplas.

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Tem isso, também, que acho próprio. Estas heresias nos deixam humanos, com fome, sede e saudades. E não é que são os hereges que são mortais, queimam em fogueiras e em desejos, que tem começo, meio e fim? Os deuses e os perfeitos é que são eternos, missas, notícias no caderno fúnebre com epopeias para narrar em condolências. Outros serão lembrados por mais um trago, por mais um gosto, por mais uma foda. Morrer é deixar de foder…

Não devia ter usado o cachecol, definitivamente. Ou devia ter ficado nu o dia todo. O vizinho ia estranhar, o porteiro ia ouvir reclamação e esculhambação, o chefe ia estranhar e o  fiscal da vida, lá no coletivo, ia cochichar que impurezas assim degastam o mundo. Até porque, hoje de manhã, você foi embora. Deixou só um perfume diferente no sabonete. Morreu, também.

Talvez haja outro recomeço, outro nascimento, outro chupão, outra pequena morte. Mas hoje, hoje, eu não devia ter disfarçado nada. Esse maldito cachecol……..

E uns infinitos de reticências.

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