Sedução

Essa história de química é batata. Saliva, cheiro, pele, o jeito de olhar e até de tirar remela do olho tem alguns encaixes do outro lado que pouca cousa pode explicar. Não é ciência, não é amor, não é gratidão, nem afago, nem nada, absolutamente nada. Aquele jeito dela responder aquela última pergunta e pronto. Sobe um sangue pela alma do corpo e alea jacta est. Estamos perdidos e obcecados e apaixonados e entregues. A fome passa a ser e estar naquele desejo fluído, de gozo. De sexos eretos. A ponta do grelo quando pulsa, sabemos, revela quânticos elementos elétricos. Assim como o cacete que refastela pra cima procurando ar. Parece um girassol buscando o sol, de tanto que remexe.

Há uma linha tênue nesse bonde chamado desejo que reside na reciprocidade. Reconhece-la é a chave para a cama, o chão, o joelho ralado, a bunda na parede fria, o cotovelo rasgado, o pentelho que engasga na hora agá, para a alegria dos fluídos e da risada larga depois do flacidez. O problema dos amantes, entretanto, muitas e muitas vezes, é esse reconhecimento. Porque reciprocidade pressupõe a tão sonhada empatia, se colocar no lugar do outro. A empatia é o sentimento biscate por excelência.

Nesses jogos de sedução devíamos experimentar sempre e sempre a nudez dos corpos e a nudez de poses e posses. Quando se deixa a empatia – e, portanto, a reciprocidade – como uma preocupação diversa ou diletante, a sedução passa a ser somente um jogo de vencer. Vencer, infelizmente, pressupõe derrotar. Nesse xadrez todo, sabe-se lá, pensar que a metida, a trepada, a abocanhada é mera questão de xeque mate é, sinceramente, uma bosta.

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O fato é que ele sabia do quão ridículo eram aqueles conselhos de revista cosmopolita, guias lacrados de sexo e que tais, que tanto fazem rir quando são levados a sério. Mas não resistiu e numa última tentativa desesperada mandou um envelope para a moça, com a cueca dentro, no meio do expediente. E a chave de um quarto de motel barato, desses que as portas abrem com cartão. Não disse mais nada.

Ela vestiu a cueca. Tinho ido trabalhar com uma calcinha tão confortável, mas tão bege, tão puída, tão descolorida, que achou melhor manter o clima.

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