Sobre idade, mulheres e desejos

Li recentemente um blog de uma brasileira que vive na Austrália. A menina fez uma lista falando das diferenças culturais entre os dois países. Não costumo dar ibope pra esse tipo de comparação que geralmente recai na inferiorização da cultura brasileira frente ao outro. Como se nada aqui prestasse ou se eles, os outros, fizessem tudo certo e nós, bárbaros, as coisas erradas. Não dá. Porém, algo me chamou atenção na lista dessa moça. Ela disse que lá na Austrália, os homens mais velhos preferiam se relacionar com mulheres da idade deles. Que era até difícil ver um casal com uma diferença significativa (?) de idade.

Daí fiquei pensando em um monte de coisas. Até meio contraditórias. Confesso que achei bacana isso de pessoas mais velhas continuarem namorando, se apaixonando, se encantando. Mas também acho que a diferença de idade entre casais não pode ser tabu. Chato mesmo é ter regras rígidas pautando normas em relacionamentos afetivos. Né?

Mas, em nossa cultura, só um lembrete: homens, de qualquer idade, estão autorizados a ter vida sexual e afetiva. O mesmo não vale para as mulheres.

É sem sombra de dúvida, um hábito cruel e canalha desautorizar socialmente que uma mulher mais velha namore. Com alguém da idade dela, mais velho ou mais novo (aí o escândalo é total). Parece válido indagar: por que mulheres consideradas “maduras” ainda causam bastante estranhamento por exercerem seus desejos e suas sexualidades? Parece que a sua avó, a sua tia, a sua mãe ou aquela sua ex-professora devem estar condenadas a viver sempre no lugar da não-libido; como se fossem seres destituídos de desejos e que devem ser engolidas por essas identidades, quase sempre ligadas a maternidade com uma conotação conservadora e aprisionante.

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Vejo com dó o escarcéu que a mídia faz em torno da vida amorosa de Susana Vieira. Quase sempre na perspectiva de ridicularizá-la e de torná-la uma figura folclórica porque a mesma simplesmente comete a ousadia de namorar. E de namorar homens mais novos. Mas e daí? Susana poderia se relacionar com toda a torcida do Flamengo mais a do Corinthians que não seria da nossa conta.

Mas a mídia que alimenta as fofocas das celebridades, esperta como ela só, sabe que criar esses personagens como esse, da “senhorinha sem-vergonha”, ajuda e muito a vender revistas e a aumentar o número de acesso aos sites de espetacularização da vida privada. E sinceramente, a gente só perde com isso. Porque não devíamos reforçar essa cultura que tanto deprecia as mulheres mais velhas no exercício das suas liberdades de corpos e afetos. Ora, todxs nós chegaremos lá (assim espero, risos). E que vida linda, farta e generosa podemos ter sem esses rótulos babacas e moralistas! Realmente precisamos alimentar esse julgamento que acaba pesando muito mais pra nós, mulheres?

Não concordo e não darei o braço a torcer. Jamais esboçaria qualquer sinal de reprovação se minha mãe, aos 56, viúva, quiser namorar. Aplaudo e sempre aplaudirei pessoas que optam por serem felizes, sozinhas ou acompanhadas, por viverem seus desejos à revelia do olhar alheio, da patrulha alheia. Gosto dos que têm fome, como diz o verso de uma música de Adriana Calcanhotto. E vamos parar de apontar o dedo e deixar que as pessoas apenas fluam nas suas experiências, em qualquer fase da vida.

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2 ideias sobre “Sobre idade, mulheres e desejos

  1. “(…) vamos parar de apontar o dedo e deixar que as pessoas apenas fluam nas suas experiências, em qualquer fase da vida.”

    Minha escritora preferida…

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