Tem mulher boa, sim. E se reclamar tem o dobro!

Uns meses atrás, o site Catraca Livre fez uma matéria sobre o ensaio “Beleza Real” . As fotos, sem fotoshop, mostram mulheres das mais variadas formas, etnias, idades e seus corpos lindos, cheios de curvas e historias (até já falei disso aqui). Ao compartilhar o link em sua página no Facebook, o Catraca escolheu esta que, pra mim, é a foto mais potente do ensaio. Uma mulher de 52 anos, com 2 filhos adultos, nessa lingerie rosa. Poderosíssima!

Foto: Bárbara Heckler

Foto: Bárbara Heckler

A partir disso, comecei a acompanhar a movimentação na página. E foi triste. Foi pior do que eu esperava. O body-shaming, o moralismo, a patrulha, a crueldade, especialmente sobre o corpo dessa mulher (já que ela acabou em evidência) foram tamanhos e tão intensos, que o próprio site acabou apagando a postagem da página, pra evitar mais agressão.

Surgiram desde “conselhos” pra saúde até comentários sobre a idade, o peso, a pose… quando não tinham mais o que criticar, começaram a questionar a competência da fotógrafa. E, né. Claro que me pergunto se o fato de a fotógrafa ser mulher não intensificou o recalque destilado. Foram mais de mil comentários. A maioria carregada de preconceito.

A principio, minha amiga, a modelo desta foto tão potente e esplendorosa, se sentiu bastante atingida. Magoada. Constrangida. Ela, que disse ter vivido um processo tão empoderador somente de haver posado pra esse ensaio. Isso me doeu muito. Porque eu estava lá na sessão de fotos. Vi quando ela chegou de tubinho preto e colar de pérola e vi quando, duas horas depois, ela saiu na garagem, que é totalmente devassada, pra posar de calcinha e um lenço que apenas lhe cobria parte dos peitos, em cima do fusca vintage do marido que dirigia naquele dia.  Em plena 3 da tarde de um dia de semana!

Eu vi esse momento. E o tanto que ele foi excitante. E o tanto que ela se sentiu linda e sexy e gostosa naquele corpo que conta uma historia tão rica de 30 anos de dedicação ao magistério.

“Essas veias que tenho nas pernas são de anos de sala de aula, ensinando em pé em frente ao quadro negro”, ela diria numa conversa. “Reverencio esse corpo e essa história”, completaria.

O tanto de amor que senti? E o tanto de estupor que me causou a cegueira, a burrice e a maldade da pessoas? A gordofobia,  o body-shaming, a misoginia, o machismo, o moralismo, o preconceito geracional… O recalque de ver mulheres tão seguras sobre seus corpos e sua aparência. Porque isso também parece imperdoável. Afinal, como poderíamos nos sentir assim, tão felizes, se nem “dentro do padrão” estamos? E ainda exibir essa felicidade publicamente?

Com essa amiga conversamos muito, lhe relembrando que não havia nada de errado com seu corpo. Que o orgulho que ela tem sobre cada uma de suas micro varizes nas pernas devia ser recuperado e festejado. E que é claro que sabíamos que este tipo de ensaio provocaria reações muito controversas mesmo.

Pessoalmente, fiz questão de reiterar o quanto essa foto me emociona.

Dias depois, acabamos nos reunindo presencialmente pruma conversa sobre patrulha, bullying, body-shaming, deselegância. E na conversa alguém comentou que, pra ela, fazer as unhas era algo empoderador e libertador. Fiquei surpresa. Porque, claro, eu também faço as unhas, mas via muito mais como uma aquiescência à pressão pra estar em dia com a “feminilidade”, especialmente a “feminilidade higienizada”, e uma submissão à indústria da beleza. Não como algo livre.

E ela respondeu que foi educada por pais religiosos e muito conservadores, que não permitiam nenhum tipo de adorno ou de embelezamento. Quando finalmente ela conseguiu sair da casa dos pais, passou a frequentar a manicure frequentemente pra mostrar que pode.

O que vai colocando mais nuances e especificidades em alguns discursos e práticas, ne? Mas, isso é assunto pra outro post. Aliás, nem sei por que tergiversei assim. Acho que é porque, no fundo, pra mim, a raiz é a mesma: o corpo é meu. Claro que sempre há espaço pra problematizar, mas fundamentalmente eu decido sobre ele e se quero exibi-lo, com veias, celulites e estrias. Se quero pintá-lo, tatuá-lo, não depilá-lo, expô-lo, entregá-lo, dá-lo, vendê-lo… Meio que parafraseando Valesca, a porra do corpo é meu!

PS: Aviso aos do recalque: minha amiga acabou de posar para a segunda edição do ensaio.  E vocês não têm ideia da maravilha que ficou! Que bunda, amigues. Que.Bunda.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *