Dilma, o vestido, as críticas e as críticas das críticas

Aí que teve a cerimônia de posse da Dilma, e o assunto foi …. claro: a roupa da Dilma, a cor do vestido, o corpo da Dilma. E dá um cansaço. De novo e de novo.
Uma mulher em situação de poder? Critique-se a roupa, o rosto, o cabelo, a maquiagem. Sempre, todo dia, não há de faltar. A saia é curta, é longa, o decote, o corpo, fica bem, não fica,  a cor da roupa, o tecido, o corte de cabelo…. assunto para longuíssimas horas de nada e coisa nenhuma.

Dentre as “críticas estéticas” da cerimônia de posse, estavam as jornalistas Míriam Leitão e Cora Rónai. Cora chegou a criticar o “jeito de andar” da Dilma – segundo ela, “deselegante”. Sinceramente.

Muita gente ficou indignada com os comentários, corretamente, a meu ver. Já é a segunda posse da Dilma, e o assunto é esse de novo? Roupa, corpo “acima do peso” (do peso de quem?), cabelo, maquiagem…? Sério que o assunto é esse?

Só que, na sequência, chegamos à segunda onda de mais-do-mesmo: algumas pessoas passaram a exibir fotos de Míriam e Cora, para, de alguma forma, deslegitimá-las. Com essa ou aquela roupa, com esse rosto, com esse corpo, querem criticar quem?

E teve gente que achou isso razoável, que achou que elas apenas “tiveram o que mereceram”. Aí eu queria esclarecer, desde já, que estou me lixando para elas. Não é esse o problema. O problema, pra mim, é que, se luto desde sempre para dizer que uma mulher pode ter o corpo que tiver, usar a roupa que quiser, andar do jeito que lhe convier, isso vale para a Dilma, mas tem que valer também para  a Cora e a Míriam. Ou vocês acham que não? Que o “olho por olho” é o caminho? Mais ainda, será que vocês não percebem que, ao “expor” Cora, Míriam e quem mais for, estão atrasando a luta e a trajetória das mulheres todas, a nossa, que queremos que a conversa saia da avaliação de corpos, de jeitos, de roupas? Que temos que rebater, sim, as falas delas, mas não deslegitimando-as pela sua aparência?

(pausa para auto-citação)

TuíteJackieO

Alguém  reparou que não havia nenhuma discussão dos ternos dos inúmeros homens que tomaram posse. Procurei também, e não achei nada a respeito. Outra pessoa chamou a atenção para o fato de que, se não se fala das roupas dos homens, é que elas obedecem a um figurino bem mais rígido, o que não deixa de ser outra prisão. Fato. Mas esse uniforme os protege, como se fosse o avesso de um certo tipo de nudismo: quando está todo mundo igual  – seja nu ou de terno -, o que se vê é a pessoa, não a roupa.

Eu, por enquanto, prefiro pensar que a gente pode ir além. Que há tantas, tantas coisas passíveis de ser criticadas na Dilma e no governo Dilma. Que é possível e necessário rebater e discutir os comentários idiotas da Míriam Leitão e da Cora Rónai, sem precisar chamá-las de feias ou de mal vestidas. Porque se a gente acredita que essa não é a questão, bem… essa não é a questão. Nem para a Dilma, nem para a Míriam, nem para a Cora.

Voltemos ao que interessa.

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6 ideias sobre “Dilma, o vestido, as críticas e as críticas das críticas

  1. Das tantas cacas que li, também teve: “fulana temer roubando a cena novamente”, “olha como é linda e elegante”, ” kd primeira dama da gilma”. Uma nojeira sem fim. Dai olhei pra tv e pensei ” yes, segunda posse!”. 🙂

  2. Cada pessoa se veste como quer e pode.
    Acima do peso?
    Magra?
    Feia?
    Bonita?
    Elegante?
    Deselegante?
    Meu Deus! Quanta bobagem!
    Perda de tempo!
    Que pena!

  3. Um pouco antes, eu escrevi o texto que segue e publiquei no facebbok, gostaria de saber se você concorda. Abraços, Sandro

    O vestido ridículo da Presidenta e a gafe de não ter nascido homem
    Então uma mulher chega à presidência, ultrapassando milhares de barbados das famílias mais poderosas do país, e faz isso aqui, na terra do machismo sufocante, e o que mais se comenta de sua posse é que estava ainda gorda e mal-vestida? Que lástima! Mas além da roupa visível: será que usava calcinha? Será que fez sexo no dia anterior à posse? E nos peitos, não faltou um silicone?
    O segredo (meninas que jogam contra si próprias enquanto gênero), é que além da roupa masculina ser padronizada (viram como quase todos os “meninos” usavam o mesmo terno e gravata?), a história nos poupa de sermos reduzidos a nossas vestes e corpos. Já para as mulheres como a Presidenta quanto sufoco para se arrumar de acordo com a expectativa da platéia!
    Mas ela ia ao Oscar? Ia ao São Paulo Fashion Week? Não, ia trabalhar, bater ponto no escritório para o cargo que – queiram ou não – se candidatou, lutou e venceu. Duas vezes! Quem pode, pode…
    Muitos viram “mocréias” na posse, mas de quantos “mocréios” você viu ou ouviu apontar ali? Nenhum, né? Homens podem ser corruptos, competentes, discretos ou bestas, mas para ser destacado e criticado pelas roupas ou corpo nas solenidades do poder há de se ser mulher. E se for gordinha, coitada!
    Em resumo: já que demos o primeiro passo que foi dar o cargo mais cobiçado da República a uma mulher (e valente!), sugiro que a tratemos sem fru-fru, com a seriedade e critérios válidos também para os homens. E a roupa neste cargo, acreditem, é o de menos.

    • Sandro,

      uma das características do machismo estrutural é que ele nos pega desprevenidos mesmo quando estamos com as melhores intenções, né. Por isso que, fugindo à questão do texto e que dialoga com seu comentário, eu só queria falar com você que o seu texto me deixou inquieta porque ele soou paternalista e condescendente, tanto ao tratar mulheres por meninas como por nos interpelar e a nós se dirigir como se fôssemos agentes principais do machismo. Enfim, é só uma consideração para levar em frente a conversa.E, claro, obrigada pela leitura e interlocução.

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