Liberdade Sexual é Pauta

Por Iara Paiva, Biscate Convidada

Esta semana vi uma matéria, não me lembro mais onde, que contava a história de uma britânica que descobriu que o marido a dopava, estuprava e filmava tudo. O horror.

Eu sei que a gente não deve ler os comentários. Mas a gente aprende com eles. Ou confirma o que desconfiava. Muita gente dizendo que é ridículo falar em estupro, é marido dela. Ela quer aparecer e tal. E nesse ponto eu entendo certas teorias radicais ainda que não concorde com elas. Porque pra muita gente sexo e estupro são a mesma coisa. Ou só ligeiramente diferentes. É estupro se é criança, se é um desconhecido com uma faca numa rua escura. Se é alguém que a vítima conhece, é sexo, e já não há mais vítima. Pra essas pessoas sexo não é uma TROCA prazerosa e consensual entre pessoas. É algo que um homem toma de uma mulher.

Por outro lado, fico entendendo cada vez menos quem acha que falar de liberdade sexual é desviar o tópico, é uma pauta de mulheres privilegiadas. A falta de autonomia sobre os nossos corpos é a principal responsável pelas violências mais cotianas. Estupro, violência doméstica, violência obstétrica, criminalização do aborto, homo e transfobia, são fortemente motivados pela idéia de que não podemos dispor de nossos corpos como desejamos. E que, se o fizermos, devemos ser penalizadas por isso. Seja ouvir “na hora de fazer não gritou” no parto, seja sofrer estupro corretivo por ser lésbica, seja ser estuprada pelos colegas de faculdade, seja apanhar do marido, todas essas violências passam pela ideia central de que somos menos gente e nossos corpos não são livres.

Deveria ser óbvio, mas não é: falar em liberdade sexual não é dizer que todo mundo tem que transar com todo mundo o máximo possível porque somos moderninhas. É dizer, inclusive, que a gente tem a escolha de não transar se não quiser, oras. Inclusive nunca, inclusive com ninguém, inclusive com o marido. Se a gente fala muito de sexo com uma agenda positiva é porque precisamos reafirmar que nós também temos direito ao prazer e isso não nos desqualifica. Porque o mundo tá aí dizendo que ou a gente presta serviço sexual não remunerado pra um homem que assuma o papel de nosso dono, ou é melhor ficar quietinha e com as pernas fechadas. É parte do meu feminismo dizer que todas as mulheres têm direito a experiências mais ricas. E que são elas quem determinam quais experiências querem ter.

616012_313606915413516_2027975164_o*Iara Paiva é blogueira, feminista, diva e sabida, em ordem aleatória. Sabe contar histórias de pãezinhos e gatinhos. Forte, divertida e doce. Adoradora do sol, mora na Inglaterra, mas não a lamentemos, sabe fazer caipirinha dos limões que a vida apresenta. Quando quer, escreve o Foi Feito Pra Isso. 

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