O Globo de Ouro feminista, Tina, Amy e os Clooney

O 72º Globo de Ouro foi apresentado domingo, dia 11 de janeiro de 2015, pela terceira e infelizmente última vez, por Tina Fey e Amy Poehler. Desde antes do show, no tapete vermelho, Amy lançou a #askhermore, incitando os jornalistas a perguntarem para as atrizes algo além do já batido “o que você está vestindo”, algo que realmente se pode descrever como feminista.

askhermore

Apesar da linda iniciativa, o E! (canal de variedades especializado celebridades, em fofocas e reality shows como os das Kardashians) e os demais canais que fazem a cobertura dos “Red Carpets” não foram nada além disso.

Já nos primeiros minutos, Amy e Tina, oriundas do SNL (Saturday Night Live) e grandes nomes da comédia contemporânea nos EUA, falaram de uma acusação que tem balançado Hollywood: a que que o comediante Bill Cosby teria estuprado mais de 20 mulheres, durante sua carreira. A cada dia um novo caso surge. Ele nega. A platéia ficou estática, e somente Lena Durhan, de Girls, da HBO, aplaudiu.

Pouco depois,  Joanne Froggatt, que venceu como melhor atriz coadjuvante pela sua atuação com Anna em “Downton Abbey,” uma personagem que foi estuprada na temporada anterior, iniciou a fala de agradecimento mencionando que várias espectadoras do show escreveram cartas contando que foram estupradas, e como era importante que uma vítima tivesse voz.

Mas quero falar aqui também sobre uma das falas que mais repercutiu: sobre o casal George e Amal.

George Clooney, que começou na TV com o seriado E.R (na Globo, Plantão Médico), foi para o cinema, para uma gloriosa carreira como ator, diretor e produtor, e estaria recebendo o prêmio Cecil B. De Mille, pela trajetória no show bussiness.

Ao iniciarem a apresentação do prêmio, Tina Fey disse:

“George Clooney se casou com Amal Amaluddin este ano. Amal é uma advogada dos direitos humanos que trabalhou no caso Enron, assessorou Kofi Annan sobre o conflito na Síria e foi indicada para uma comissão que investiga violações na Faixa de Gaza”, detalhou Fey. “Então nesta noite seu marido está aqui para receber um prêmio pelo conjunto de sua obra.”

Então, para algumas pessoas, o feminismo foi o fato de  o ‘marido-troféu’ ser George Clooney, e de dessa vez termos um “marido-troféu” em vez da “mulher-troféu”.

E eu não vejo isso como ser feminismo, não mesmo.

Vejo, sim, como feminismo, dentro de todo o contexto dessa apresentação dos Globo de Ouro, desde o #askhermore até o finalmente, com o discurso de Maggie Gylenhaal, que ganhou como melhor atriz por “The Honorable Woman”, onde interpreta uma empresária:

“Há muita gente falando sobre a riqueza de papeis para mulheres poderosas na  televisão ultimamente. E quando eu olho para este salão e para estas mulheres que estão aqui, penso nas performances que vi este ano e o que vejo são mulheres que às vezes são poderosas, outras não; às vezes são sexy, outras não; às vezes são honradas, outras não. E o que acho que o que é novo é a riqueza de papeis para mulheres de verdade na TV e no cinema. Isso que é revolucionário e uma evolução. E isso me anima. (…)”.

Vejo como feminismo apontar que o que elas fizeram, jogando a luz sobre a esposa Amal e abafando o indivíduo George, foi evidentemente uma piada inteligente, que demonstra o quanto é ridículo o conceito de “pessoa-troféu”.

Pessoas são pessoas, não objetos, não prêmios ou consolos.

Já se falou sobre as situações de George Clooney, que se casou com Amal, aos 53 anos (dele), e ainda foi visto como um prêmio, e de Jeniffer Aniston, que também teria anunciado um noivado, aos 45 anos, e para ela seria um consolo, não uma escolha.

Então, considerando as subjetividades de todos os envolvidos, o feminismo nessa apresentação não foi a de trocar seis por meia-dúzia simplesmente invertendo a posição de poder, mas jogar luz sobre as mulheres, e não relegá-las ao que estão vestindo (ou a “quem” estão vestindo) nos Red Carpet da vida.

Pergunte sobre ela, pergunte além do vestido e das joias, e não simplesmente passe a perguntar para eles o que estão vestindo, apontando que George Clooney usou o mesmo terno do casamento (oh, horror dos horrores!) ou que Tiago Lacerda usou oito vezes a mesma bermuda para andar na praia (sim, isso é manchete do Ego). Já o Globo deu destaque às “polêmicas” luvas brancas usadas por Amal, e teve piadinha machista, do Jeremy Renner, falando sobre aquele humor de quinta-serie, sobre os seios de J-Lo (incrivelmente sexy a J-Lo, aliás, como sempre – não resisti). Mas até os companheiros de mesa dele se mostraram constrangidos com a besteira “eu vi peitos, eu vi peitos” a la Beavis e Butthead.

Quando Tina Fey apresentou o curriculo de Amal ao apresentar o prêmio de George, ficou claro que era uma piada. Mas quando as mulheres, independentemente de suas vidas e conquistas pessoais, são apresentadas apenas como acessórios para os maridos poderosos, isso não é nada anormal, e não é visto como piada, mas como coisa rotineira.

Que tenhamos mais feminismo em 2015, mais luz nas mulheres, nas pessoas trans, nas pessoas homo e bissexuais, e que isso seja o normal, e não uma ano atípico.

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