O feminismo fulanizado

O feminismo de internet se fulanizou. É um feminismo que está sempre com o fígado em revolução. A bile nas alturas. Uma adolescente enraivecida com os pais. Por isso, quando jornalistas nos perguntam quais são nossa lutas, as lutas são difusas. Não me identifico com esse feminismo e não consigo me declarar feminista nesse meio.

Sim, tem gente chata na nossa vida, gente machista, misógina, preconceituosa de vários tipos e níveis. Escolhi não me aborrecer o dia todo ou nem emprego consigo ter, passaria o dia brigando e discutindo. O que posso fazer nessa horas varia do pito, quando conveniente e possível, ao escracho, da ignorância ao fazendo a egípcia, e nas redes sociais dando um unfollow aqui ou um mute ali, dependendo do grau de amizade. Mas olha, isso pouco muda o cenário machista do país, viu?

Quando li O Segundo Sexo, eu tinha uns 19/20 anos: o que mais me chamou a atenção foi a insistência que Simone de Beauvoir dava para que as mulheres fossem independentes financeiramente. Vejam bem, se temos nosso dinheiro, podemos sair de nossos casamentos, de relações, da casa  dos pais, podemos mudar de emprego se temos qualificação profissional (oi PRONATEC rs) e se também dispomos de creches públicas ou acessíveis quando temos filhos. Sendo assim, não estamos à mercê de ciclos de abusos: seria bem mais fácil. Não é só isso que pesa, eu sei, mas pesa bastante.

frases-e-pelo-trabalho-que-a-mulher-vem-diminuindo-a-dis-simone-de-beauvoir-1423Parece simples, mas não é. E não é  principalmente porque nossos salários ainda são mais baixos e não dispomos de creches, as mulheres de classe média dependem de tirar outras mães de casa – elas deixam os filhos não sabemos como, e ainda reclamamos delas.  Não dividimos o trabalho doméstico e de cuidados com a família por igual. Sequer controlamos, financeiramente e moralmente falando, nossos direitos sexuais e reprodutivos, porque neles o Estado e religião se intrometem. E controlar nossas vida sexual e consequentemente o número de filhos é essencial para nossa liberdade de ir e vir e, novamente, fugir de ciclos de abusos, também.

Nesse contexto, ver a pauta feminista tomada por birras me entristece. Mas é mais fácil ganhar likes e RTs nessas questões tão pequenas que geram celeuma do que nessas grandes pautas em que há um grande consenso, eu sei. No entanto, precisamos fazer as grandes pautas circularem, ou nossos direitos morrem. Taí o grande desgovernador de SP questionando a licença maternidade de 6 meses para funcionárias públicas estaduais. Não vamos deixar mais essa, espero que o movimento feminista pressione e se una. É urgente.

img_0803Agora imagina um país que dê, de verdade, iguais condições salariais às mulheres, creches para todas as crianças que precisem, proteção no emprego, na gravidez,  acesso pleno ao planejamento familiar, num Estado laico, para que possamos exercer nossos direitos sexuais e reprodutivos, para casadas e solteiras. Aí sim teremos mulher empoderada. Aí sim, a gente não precisa ficar vivendo de picuinha besta.

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8 ideias sobre “O feminismo fulanizado

  1. Concordo com o texto, porque para mim ele fala de pautas de luta, militância e exercício político. Concordo porque é preciso organização, debate, e um certo nível de consensos entre quem faz. E quando alguém me pergunta se sou feminista eu digo que sim, mas explico que não sou militante, não participo de debates coletivos e não me mobilizo, mas eu digo que faço a minha parte, que xingo muito no twitter, que respondo cantada na rua e que me posiciono em mesas de bar cheias de machinhos ofendidos. Eu sou aquela pessoa que o texto aponta que não ajuda em nada o movimento, que não corre atrás, que fica de picuinha, que não trabalha pelos grandes temas, mas eu reconheço o trabalho das inúmeras pessoas que fazem isto.
    Da mesma forma que o texto aponta que pessoas como eu não ajudam “O Feminismo”, algumas das formas de mobilização não me representam, eu por exemplo cansei de uma certa escolinha para feministas onde se molda ativismo e pasteuriza opiniões, cansei de me sentir vitimizada com relatos que pipocam a todo lado de estupros, cansei de atrair haters de escola primária.
    Entretanto, de que vale torcer o nariz de um lado ou de outro se todas nós estamos adquirindo experiência e discutindo sobre elas e crescendo juntas? Todas estas questões relativas aos modos como agimos em relação ao feminismo fazem parte dos conflitos que são inerentes a participação social e política, e ainda assim, continuo concordando com o texto porque neste momento a mobilização tem que ter pautas acertadas e uma mobilização experiente e atuante no espaço público, certamente, picuinha besta tente a enfraquecer a nós mesmas.
    Entretanto para que isto aconteça é necessário retirar de nossas pautas de discussão essa vigilância em relação a experiência de cada um. E isto inclui, sim, o fato de que o movimento não enfraquece se eu me sinto ofendidinha porque tem gente fazendo escolinha, ou porque tem gente de birra, no final das contas as conquistas políticas serão maiores que isto.

    • entendi, concordo em parte. mas o objetivo do texto, além de um desabafo pessoal meu, não é apontar dedos, mas sim priorizar mesmo pautas. fazer circular debates mais interessantes em detrimento de outros. entendo sempre a urgências do desabafo. o texto não significa que não me posiciono em mesa de bar e outros lugares, ao contrário, o faço sempre que julgo útil e conveniente. aí é posicionamento pessoal meu me desgastar e debate se acho que vai levar a algum lugar. o que é chato, ao meu ver, sempre é a cada nova treta deixarmos de lado uma pauta como o governo de SP tentando invalidar a licença gestante de 6 meses e ficarmos 3 dias debatendo uma charge, por exemplo.

      • E eu concordo demais, acaba que o meu comentário também é super pessoal… Não quis dizer que diferentes tipos de posicionamento político sejam mais válidos que os outros, mas que as pessoas exercem poder e resistência de diferentes modos e as vezes não sei julgar se essas tretas são válidas ou não, ou se prejudicam ou não o exercício político… De qualquer forma continuo concordando muito com o que o teu texto chama atenção e objetiva, um debate sério, com pautas sérias e com direcionamento. xxx

  2. Eu concordo bastante com o texto, de picuinha em picuinha vamos perdendo nossas agendas mais importantes, vamos banalizando e enfraquecendo nossa luta. Também acho fundamental o destaque à questão do trabalho, vejo uma nova geração de donas de casa (muitas de classe média, nada relacionado ao peso da tripla jornada de trabalho, muitas por escolha mesmo, e me desanimo muito, acho preocupante, temos uma onda bem antifeminista hoje).

    Mas acho que também é preciso tomar cuidado com o que se chama picuinha, o que se considera algo menor. Sempre digo que temos uma microfísica do machismo, como a própria autora reconhece, dizendo como busca lidar com o machismo no seu dia a dia. Mas às vezes temos que colocar para fora sim, temos que tratar, como essas pequenas coisas vão sim construindo o machismo e nos esmagando. O machismo no ambiente de trabalho, por exemplo, hoje em dia é muito feito de pequenas coisas. Se não ficamos atentas, se não construimos redes de solidariedade, buscando sim resistir cotidianamente, acho que não combatemos o machismo. A questão é como tratar isso no espaço da internet, que tem suas dinâmicas próprias, que tende, sinceramente, à espalhar a mediocridade e reflexões rasas, etc.

    Tenho um blog pessoal e em alguns dos textos (escrevo pouco) falo sobre essas coisas cotidianas que vão construindo o machismo e nos esmagando. Enfim, temos que falar, temos que trocar, acho que a questão é fazer carnavais por questões menores e esquecer da necessidade de avançarmos na nossa luta, de fato.

    Abraços e avanti!

    • Mas aí vc está certa Mariana, ao tratar sobre o que acontece no ambiente de trabalho, não é pra não falar disso. a gente deve falar disso, mas não particularizando o autor, mas os fatos. reiterando sua habitualidade, a questào do quão danoso é, as consequências , p. ex, obstacularizar a ascenção profissional das mulheres devido ao preconceito de gênero no trabalho. Mas isso é muito diferente de ficar somente batendo an tecla de fulano é machista. Deve-se apontar a fala/ato macista explicando porque assim o é reiterar o efeito danoso a curto/médio/longo prazo.

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