Uma estrada em amarelo

Totó, acho que não estamos mais no Kansas.

amarelos

Uma coisa que eu tento não esquecer é que a vida está menos para uma sequência linear e progressiva de eventos do que para um caleidoscópio de vivências. Os momentos vão e vem e as pessoas são em suas diferenças, belezas, divergências, limitações e encantos. Eu sou intensa. Teimosa. Nem sempre respeito os argumentos contrários. Muitas vezes eles me causam raiva, vergonha pelo outro, aversão, etc. Mas tento sempre respeitar quem os emite. Porque, tento me lembrar, a pessoa é mais do que aquela ideia emitida naquele momento, daquela forma e a vida é mais e mais complexa que aquela desavença. Eu gosto da diversidade. Dela toda, não só da diversidade com a qual eu simpatizo. Então, faço o que posso. Um pouquinho mais perto do que sonho, espero. Um passo: as delicadezas no cotidiano. O olhar generoso. O gesto afetivo. O riso. Desmantelar as estruturas pelo prazer.

Procuro belezas, coleciono-as pra me lembrar: o bom, o belo, o justo, é isso que faz civilidade. Em pequenas pedras amarelas, reconstruo minha estrada. Eu choro, enterneço-me. E rio tão de leve como se tivesse desaprendido. Procuro palavras em mim e elas se amontoam como pira. Eu ardo. Mas faço soar música e há amanhã. Tenho gostos. E sou grata. Grata por todo momento que não é só dor. Grata. Pelas coisas pequenas, tão pequenas como o riso da menina vizinha, alegre em seus 2 anos de correr atrás de um gato. Seu grito alegre me atravessa. É bom. Grata pelas amizades, pela conversa fácil, pelo abraço morno, pelo riso solto. Grata porque o mundo que quero construir já vai sendo, em pequenos tijolos, em pedacinhos de estrada, em fragmentos. Momentos.

Sou grata por haver, ainda, pessoas no trabalho, gente fazendo sexo, meninos atirando de estilingue, idosos de mãos dadas em praças, partos, aniversários. Sou grata por haver, sei lá, a Austrália, e tanta gente que não sabe de mim. Sou grata porque a vida segue e não me espera. Sou grata porque, assim, nesse lugar de desconhecida, não preciso saber tudo, dizer tudo, me posicionar sobre tudo. Não preciso ter certezas nem verdades. Posso calar. Sumir. Descansar. Ouvir. Acolher. Aprender. Mudar.

Sou grata pela dinâmica, pela plasticidade, pela possibilidade. Pelas mudanças que podemos ser. Que podemos viver. Sou grata pelas pessoas que conheço com intimidade e pelas que  cruzo uma só vez na rua e que sorriem, tímidas ou expansivas. Sou grata pelos que já foram e pelas pessoas que serão. Sou grata porque ser humana é estar. Pela finitude que me permite saber-me. Sou grata pelo tantinho de paciência que o tempo construiu em mim.

Sou grata por esse blogue, pelas pessoas que o escrevem, pelas pessoas que o lêem, pelos olhos e mãos desconhecidas que o divulgam. Sou grata por ele ser bebedouro de riso, alento, alimento. Sou grata por escrevermos assim: desejo, tesão, sexo, liberdade. Sou grata pelas perguntas. Pelas respostas que não temos. Pelas estradas que são muitas. Sou grata por dizermos: quero e mais. Sou grata por não escolhermos o caminho da resposta ácida, da pedra dura, das turbulências que separam. Por acolhermos nossos limites, fragilidades, mudanças. E por nos sabermos, ainda assim, gostosos, ávidos, disponíveis e interessantes.

Sou grata pela biscatagem. Biscatear amarela as pedras com que (nos) fazemos estrada. Biscatear avermelha os sapatos. Biscatear é nosso mágico de Oz particular, por aqui encontramos elementos com o que pensar, coração para sentir, coragem para resistir. Biscatear é ser nossa própria casa.

Grata pelo bonito que me diz: o humano também pode ser em ternuras. Obrigada. Porque eu quase esqueci. Uma pedra amarela de cada vez, reconstruindo a humanidade em mim. O mundo precisa de beleza. Eu preciso. Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro. Cada palavra de afeto, cada gesto de gentileza, cada pequena delicadeza, cada afago, cada gozo, cada gosto. Chuva. Humanidade. Esse caminho que fazemos biscateando. Mais uma pedra. Amarela, por favor.

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5 ideias sobre “Uma estrada em amarelo

  1. Eu, já sem peso, vim aqui embaixo pra te dizer que te gosto muito. Pra todas vocês. E que este quentinho no coração me faz tão grato que não tenho mais como agradecer.

  2. Ah…esse blog aqui tem mudado minha vida. Sou grata por ter a possibilidade de ler coisas tão leves e tão duras….às vezes precisamos nos embrutecer.

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