Amor de carnaval

Por Beth Salgueiro*, Biscate Convidada

confetes-e-serpentinas-1453247439428_615x300
Conheci o amor da minha vida no carnaval.

Minha casa em Olinda sempre foi pouso de viajantes dos quatro continentes, especialmente no carnaval. A turma chegava dez dias antes, mas com um mês a gente já arrumava a produção das fantasias, a maquiagem, listava o roteiro dos blocos, contratava a cozinheira que ia fazer o alimento salvador da ressaca, e principalmente definia quem vai dormir onde ou com quem. Tinha uma regra, sutil e não verbalizada, no carnaval: todo mundo estava sem compromisso, disponível pro que pintasse. Sem críticas nem cobranças. Essas hospedagens aconteciam em todas as casas, não só na nossa. Afinal era Olinda e era carnaval…

Então, naquele ano, o aniversário da amiga com quem eu morava caia justo na semana pré. Por isso a gente resolveu fazer uma festança caribenha na nossa casa, convidando amigos e o povo de fora que tinha vindo pro carnaval. E foi aí que ele apareceu. Eu não o conhecia. Era um homem comum, muito moreno, com cabelos compridos e encaracolados, mais ou menos da minha idade, com umas roupas que nunca tinha visto em ninguém antes, super modernas e descoladas. Me amarrei de cara. E ainda por cima, ele foi o rei da pista. Dançava com o corpo inteiro aquelas salsas, todo naturalmente sexy. Não estava se exibindo, mas chamava a atenção da mulherada com aquele charme avassalador. E eu pensei comigo: eu quero esse homem. Ele vai ser meu, pelo menos nesse carnaval… Fiquei por perto, na espreita, porque minha sedução é sutil, mas nem precisei me esforçar muito, porque ele também ficou a fim. Então a gente dançou a música seguinte e a outra, bebendo tequila, e virou a noite se agarrando pelos cantos, aos beijos, e amanheceu andando pela rua e parando pra se pegar e adormeceu na minha cama, cheia confetes e purpurina. Acordamos tarde e tão na boa, que  foi a primeira vez em muitos anos que não me arrependi no dia seguinte de ter dado trela pra um cara que conheci de noite. Pensei: cara, é esse…

Então, nesse carnaval criamos uma redoma transparente que envolvia nós dois. A gente estava no meio dos amigos mas sozinhos um com o outro, vivendo aquela paixão, experimentando de tudo, adorando o toque, o cheiro e sabor do corpo um do outro, alheios a qualquer coisa que não fosse nosso tesão. Me entreguei completamente àquela paixão. E ele também. Todo mundo em Olinda sabia o que acontecia, porque era tudo muito explicito, mas a gente não estava nem ai.

Na quinta feira depois do carnaval, ele foi embora. E eu fiquei despedaçada. Já tinha tido outros namorados de carnaval, e sabia que era assim mesmo, coisa passageira, sem futuro. Mas daquela vez era diferente. Então na semana seguinte fui encontra-lo na casa dele, no Rio. Ficamos uma semana em lua de mel, com o coração estourando de amor, mas eu precisava voltar. Vocês já namoraram no telefone? Pois foi o que aconteceu. Todo dia, ligações de três, quatro horas, que estouravam a conta no fim do mês. Mas que nunca bastavam. Um tempinho depois ele veio de mala e cuia. Vendeu tudo, fechou a budega e se mudou. E nunca mais a gente se desgrudou.

Com ele eu tive os maiores prazeres, os melhores orgasmos, a mais completa cumplicidade possível com outro ser humano. Com ele eu briguei muito, às vezes briga feia de querer ir cada um pro seu lado, mas sempre conversando porque ele também era chegado numa DR. Juntos aprendemos muito sobre nossos corpos, sobre amizade, companheirismo, respeito e entrega. Foi uma relação construída a cada dia. Nunca casamos, mas ele foi meu amado por muitos anos, meu parceiro de trabalho, cama e mesa, com quem tive filhos e netos. Até que ele fez aquela longa viagem, aquela que a gente deve fazer sozinho, e me deixou.

Mas ele tá por perto, eu sei, principalmente nessa época. E confesso que ainda fico de calcinha molhada só de pensar nas nossas brincadeiras juntos. É meu amor, que conheci num carnaval.

Beth_SalgueiroBeth Salgueiro já fez tanta coisa nessa vida que nem dá pra dizer aqui. Seus pés estão fincados no chão, mas a cabeça continua nas nuvens e as antenas todas ligadas no futuro. Ela diz que é feliz por estar vivendo nesses tempos contraditórios.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

3 ideias sobre “Amor de carnaval

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *