De carnaval, de verdades e dores de cada um

“Fácil, não é? Você me conta tudo e assim se livra da culpa.  Isso é egoísta, eu ficaria muito melhor se você ficasse calado e guardasse a culpa para você. Mas tem essa história de verdade. A verdade é superestimada”.

(Norma, em “Felizes para sempre?”)

Achei espetacular essa fala aí, da personagem interpretada pela Selma Egrei, que é uma grande atriz, dita com um misto de raiva e desprezo pro marido. Porque toca em um ponto essencial: tem quem conta, tem quem ouve. O que a gente conta não tem a ver com o que o outro ouve, necessariamente. 

Me lembrou da primeira vez que eu tive contato com essa questão e seus meandros. Eu tinha 17 anos e um namorado que não gostava de carnaval. Fui pra Olinda e ele ficou aqui. Tomei duas doses de pau do índio (favor não fazerem isso) e fiquei com outro cara o carnaval inteiro.
Fiquei, e era carnaval.
Quando voltei pro Rio, a primeira coisa que fiz foi contar pro meu namorado. De supetão. Era uma história de carnaval, pra mim tava claro. Não era nada sério. Só brincadeira.
Aí eu vi que  a discussão da “verdade”, nessa história aí, não fazia sentido nenhum. Que o que eu tinha vivido não era o que ele escutava ou sentia, e que nada, nada justificava a dor que eu causava a ele, com a desculpa de “ser sincera”. Na minha percepção, eram várias dores, inclusive, em camadas: uma era o fato concreto, eu com outro cara, que ele ficava revivendo e com o qual se torturava. A outra era a dor dele ver que eu não estava penitente como ele esperava. Não era que eu não sofria: não queria estar causando aquela dor a uma pessoa de quem eu gostava, claro que não. Mas era isso, eu tinha ficado com um cara no carnaval. Não considerava aquilo tão grave, não me sentia tão culpada assim, sentia o abismo que havia entre a minha percepção e a dele, e que só aumentava a cada conversa.
E foi isso, um desentendimento só. Uma conversa e uma verdade que não existiam, verdades que se esbarravam e que se machucavam uma à outra.
Esse texto não pretende dar lições de moral a ninguém, claro. Cada um sabe dos seus acordos e das suas possibilidades. A intenção aqui é só pensar um pouquinho mais sobre esse assunto fugidio, a “verdade”, o que se diz, o que se cala, como um sente, como o outro recebe. O que é possível partilhar, compartilhar, viver junto. O que não é. O risco permanente que é viver no mundo, se expor no mundo, aparecer. As escolhas que se faz, as consequências dessas escolhas.
Não sei, de verdade, nem quero discutir, se se deve ou não contar, o que se deve ou não contar (porque, é claro, o buraco é muito mais embaixo, e a gente pode se encantar de forma plena por outra pessoa sem nunca ultrapassar os limites impostos pela moral vigente. Isso pode. Ninguém discute.). Acho mesmo que cada um sabe de si. Do que sente, do que faz. De como lida com isso. Mas estou convencida de que certas sinceridades servem apenas para tirar o fardo da culpa da pessoa que resolve ser sincera, e jogá-lo em cima da outra pessoa. E vale a pena pensar um pouco sobre isso. Tudo são escolhas, sempre. Narrativas, cada um tem a sua. É tão mais fácil classificar e categorizar. Fica parecendo tudo tão arrumadinho. Só que não.
Carnaval

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