Não Perde Por Esperar

Por Ana Paula Medeiros, Biscate Convidada*

Uma hipersensibilidade. Um resto de TPM. Um tesão descontrolado. Precisa justificativa pra acesso de tesão? Não.

A mente inquieta, o corpo ardendo, se remexendo suspeito na cadeira do escritório, o fim do expediente ainda longe. Como o amante: longe. Outra cidade, alheio ao cio que me consome.

Um email do chefe. Respondido. A boca entreaberta, a respiração um pouco mais arfante do que devia, os olhos fitam o vazio. Longe. Outra cidade. Será que dá pra notar? Dois telefonemas para resolver assuntos institucionais. Uma reunião em meia hora. Os bicos dos seios duros por baixo do vestido de verão, a boca seca, as coxas úmidas, o pensamento longe. O amante, longe.

A tensão é insuportável e há um prazer sádico em deixá-la crescer, indomável, queimando as entranhas, ocupando as frestas do dia. O riso malvado e dolorido, por dentro, fala da fúria que exige satisfação. Mas não há carícia possível para aplacá-la. Só tapa, marca, dente, unha. Grito, fogo, gozo, alívio.  O amante, longe.

Ótimo pretexto para ir à academia (sim, ir à academia demanda pretextos, é uma obrigação). Mas nesse dia vai ser bom despejar o ímpeto todo nos aparelhos, queimar o tesão junto com as calorias na aeróbica.

Exercícios de braço, halteres, a imagem no espelho. Os ombros, o colo, as veias se mexendo no pescoço ao levantar o peso. E se eu estivesse nua? É assim que ele me vê, em músculos e movimento? Pisca, sacode a cabeça, espanta o pensamento vadio, sorri. Próximo aparelho, cadeira adutora. Regula o peso nas placas. Senta. Pernas bem abertas. Respira, faz força contra as almofadas e hastes, para fechar, bem devagar. Concentra no fortalecimento dos músculos internos das coxas. Inspira. Abre de novo. Abre mais. Cada vez que eu abro, ele mete os dedos em mim, rindo com os olhos. Me provocando, o sacana. Eu mordo o canto da boca. Sinto a cabeça girar, solto o ar devagar, num gemido quase inaudível, e fecho os joelhos com força, prendendo o corpo dele entre as pernas. Abro outra vez e é um convite. Sou eu que rio agora. Vem, mete mais. Três séries de quinze repetições.

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Chega. Melhor correr, cansar, prostrar o corpo em outra fadiga. A música alta no fone de ouvido marcando o ritmo acelerado das passadas na esteira, quase com raiva. Sem pensar, sem pensar, sem pensar, longe. Muito longe. Fora de alcance. Eu queria tanto. Hoje. Agora. Já. Não pensa, corre. Os dentes cerrados, no limite do esforço. Calor. O top encharcado, a camiseta colada por cima. O suor escorre entre os seios, pelas costas, um fio escorregando até o meio da bunda. O rosto vermelho, afogueado, o cabelo grudado na testa, na nuca. Aumenta a velocidade.

Exausta, as pernas bambas, os olhos esgazeados miram cenas de trepadas épicas, noites viradas, corpos melados, misturados, quentes, feitos do avesso. Bocas, línguas, pernas, mãos. Em séries. Muitas repetições. O coração bombeia o sangue com a força e o ritmo com que ele enfia em mim, eu aperto o apoio da esteira com força, fecho os olhos por um momento, epa, assim eu perco o equilíbrio. Respira, acorda, diminui a velocidade, os batimentos, aos poucos. Que merda. A ideia toda do exercício era gastar o fogo no rabo, sublimar o desejo. Não parece ter funcionado.

Início da noite. Está abafado e troveja. Podia cair uma chuva daquelas, grossa e quente, e eu caminharia feliz, a pele chicoteada pelos pingos, antecipando o prazer do chuveiro que me espera em casa, com algum alívio finalmente, solitário, sob a ducha. O amante, longe. Ele não perde por esperar.

AnaPaulaPBiscate

*Ana Paula Medeiros é mais amante do que esportista, mais flamenguista do que arquiteta, mais feminista do que parece, mais inquieta do que seria sensato. Se deixa doer quando dói a saudade, se deixa chorar quando as lágrimas pedem para sair, ri de si e do mundo e do estado das coisas no mais das vezes. Perguntada tarde da noite, quem sabe depois de muitas cervejas, ela ousaria dizer que talvez seja feliz.

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