O pentelho branco

O primeiro veio ao redor dos 30. Estava eu com um filho pequeno, morando em outro país, sendo a “mulher de alguém”, a “mãe de alguém”. Longe daquela com cartão de visitas com o nome impresso sobre um cargo qualquer que eu achava que merecia. Apenas partes de mim, pensava. E o tanto que eu achava que o cartão de visita me definia naquela época? E as outras coisas, não? E a cobrança sobre “ser estudada e não estar fazendo nada’”? Nem vou falar que fiz. Coisas. Tantas. Porque, né. A questão nem é essa.

Mas, era como se me começasse a faltar o frescor da juventude sem as benesses da maturidade. Sempre uma falta. Uma ausência. Uma perda. De ganho, metros de “senhora” pra cá e pra lá. Em mais frases do que eu estava preparada pra ouvir, por exemplo. E ainda vinha aquele pentelho branco me lembrando que até as bucetas ficam grisalhas!

Bom, mas, aí, chegaram os 40. Não que tenha sido assim, um despertar de um belo dia. Foi um indo, um acontecendo, que acontece ainda. Vai ver eu sou mesmo meio outonal… Mas, foi um olhar pro espelho e perceber que, obviamente, eu não era mais aquela. Aquela lá.  Aquela de antes. Em mais aspectos que na pele. Era eu e mais um pouco de mim. Era eu e um outro eu. E passei a não mais renegar o batom vermelho, que já tinha sido de mim antes. Parece pouco. Mas, né, não. Vou nem explicar, é um simbólico meu. Ficamos assim, ok?

bocaperfil

E teve mais coisa. Junto com o batom, veio um me gostar do jeitinho mesmo que era eu. Com altos e baixos, não nego. Que ainda rondam. Às vezes, só na espreita. Às vezes, na cara dura! Ou até em velhos hábitos. Mas, foi pensar que o rosto aquele, com linhas de expressão, rugas, olheiras e o famigerado bigode chinês eram irremediavelmente meus. Eram o agora. O porvir. Ah, a inevitabilidade do envelhecer! Quem não envelhece morre, é o que dizem. E gostei de me saber aqui.

Fazer 40 foi uma hecatombe. Mas, coisa boa foi explodir por dentro e me refazer por fora. No batom colorido! No corpo que pariu 2 filhos, na boca com as linhas todas da vida grafadas nela. Nessa boca que beija, morde, chupa, de um jeito agora que não era assim antes. Na pele, no corpo que me cabe.

Justamente nesse momento em que por aí poderiam dizer que não sou. Pois foi justamente nesse então que mais me senti. E, finalmente, o inexorável me acalmou.

Escrevo esse texto dois dias antes de completar 43 e o publico nesse 13, dois dias depois do meu aniversario. Sei lá o que estarei pensando hoje, nesse hoje que nem me chegou ainda. Mas, se for parecido com o que senti na virada dos 40, olha. Nem te conto.

Bom, no final das contas, acho que agora posso fazer metáforas um tanto infames: porque aí vi que o pentelho branco, já no plural, dividindo irmanamente o espaço com os outros, é como o tempo. Não há muito que se possa fazer com ele a não ser abraçá-lo. Não se disfarça, não se tinge (ou sim? Consigo nem imaginar…). Pode até arrancar, mas ele insiste.

Ora, meu pentelho branco me representa. Resistente. Resiliente em seu renascimento, em como se multiplica, se mistura, se esparrama e vai se impondo. E, como tal, serei chupada, lambida, lambuzada, ora raspada, ora enroscada, aqui, acolá, em outro… Assim, diferente. Sem cor perto dos outros que ainda resistem. Na cor que a idade tem. O pentelho branco existe. Está. É.

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