Pequena Lista de Desejos e Um Grande Livro

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Adrianne Ogeda, Biscate Convidada 

Nigerian born, Chimamander Ngozi Adichie, author of the novel Purple Hibiscus.

Costumava fazer listas com os desejos e as fiz para muitos e muitos dos anos que já se foram. Nas listas, tem desde as coisas mais banais e triviais (cuidar da saúde, fazer atividades físicas e essas coisas) as mais subjetivas (focar nisso ou naquilo). Não tenho mais feito listas. Ou melhor, ainda as faço, mas são curtas. Singelas. Talvez porque nos últimos anos o meu desafio tenha sido lidar com aquilo que foge as listas, as previsões, ao controle. Aceitar mais o fluxo da própria vida. Imprevisível, surpreendente, dinâmico.  Da curta lista de desejos para 2015 um em especial: trazer a literatura para mais pertinho, bem pertinho. De tão bem me faz. De tão alargada que ficam as coisas quando novas formas de olhar surgem a cada livro que se abre. E quando o encontro é bom… ô, aí é demais.

Foi assim com “Americanah” de Chimamanda Ngozi Adichie. Essa jovem escritora nigeriana já tinha me tocado fundo com sua palestra para o TED em 2009, “O perigo da história única”, quando dizia tão bem dito o quanto enclausuramos pessoas e culturas ao conhecer apenas uma faceta de suas expressões em estereótipos que limitam a possibilidade de ver mais amplo. Com olhar mais aberto.

Seu livro trata disso. Trata das roupas que nos vestem sem que tenhamos a chance de ser mais do que aquilo que dizem que somos. E da dureza que é viver com essas roupas, apertadas que são. Em seu livro, essa questão está ali. Pulsando. Os personagens denunciam os lugares consagrados a que estão destinados. Ser negro, ser negro americano, ser negro nigeriano. Ser visto como negro e se ver como negro aos olhos de outros. Os desafios de jovens imigrantes africanos nos EUA e em Londres são o mote e uma deliciosa história de amor costura encontros, desencontros, reflexões. Personagens com nomes africanos dão um sabor especial ao romance, todo entrecruzado com o panorama cultural e político da África e dos países para os quais os personagens imigram.

Hoje acabei o livro. Li daquele jeito que livro bom é lido. Levando na bolsa para tudo que é canto, gostando até de fila de banco.  E já estou com saudades de Ifemelu, Obinze, Uju e tantos outros com os quais convivi esses dias. Meus amigos.

Sua palestra sobre feminismo, “Todos nós deveríamos ser feministas” também fala dessa mesma e mesmíssima história: as marcas da cultura em cada um de nós. Mas também do tanto que a gente é que a faz, e que por isso pode fazer diferente. Melhor. Mais bonito.

As palestras abaixo dão uma ideia da mulher forte, articulada, bonita e sensível que Chimamanda é. Leitura das boas.

https://www.youtube.com/watch…

https://www.youtube.com/watch…

Adrianne* Adrianne Ogeda é pessoa sensível, sem qualquer fragilidade. Muita força. A luz brilha nos seus olhos, vinda de dentro dela e das marcas que deixa fora. Sua busca pelas ideias no que lê não é só a fonte dos saberes e vivências que semeou e ainda semeia dentro de muitas pequenas almas: é também e principalmente o resultado da sua paixão visceral pelas boas histórias e do desejo sincero e genuíno de propagar vida e conhecimento.

 

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