BDSM de 50 tons é uma (perturbadora) invenção baunilha

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Divina, Biscate Convidada

Se uma protagonista feminista estereotipada surgisse no cinema, muita gente ia comprar a ideia. De antemão, é palatável aceitar o que dizem as más línguas sobre o Outro. Esse texto é destinado a  quem ficou atormentado com o filme e gostaria de saber na opinião de quem vivencia: É mesmo verdade que o pessoal do BDSM se comporta daquele jeito? As pessoas fazem aquelas coisas? Atenção, se não quiser saber detalhes do enredo, não prossiga a leitura.

untitled

Anastasia Steele é uma estudante de literatura com visual ladylike, curiosa e declaradamente romântica (além de virgem), dirige um fusca e tem o hábito de morder os lábios. Christian Gray é um homem muito rico, com “gostos peculiares”, experiente sexualmente, órfão de uma mãe viciada em crack, abusado sexualmente quando mais jovem. Ao se conhecerem, Anastasia se sente intimidada pela figura de Christian, a jovem expressa muitos indícios de desconforto dada a coação nas coisas mais simples: “Coma isso, não beba aquilo”. Em determinada ocasião, bêbada numa danceteria, telefona e solta meia dúzia de verdades. Ao invés do Dominador sexualmente experiente aceitar que a moça semi-desconhecida não gosta da abordagem, o que ele faz? Vai procurar o que fazer já que é um ocupado homem de negócios? Não. Ele aparece no clube e a leva para a casa dele (sem perguntar se queria). Ao acordar na casa de Christian com uma camisa masculina, descobre que ele a trocou porque estava suja de vômito e de acordo com o sujeito, não aconteceu nada sexual entre eles. Esse é o princípio das incongruências do personagem, supostamente tão versado no BDSM mas completamente desestabilizado por uma mulher baunilha (baunilha = alguém que gosta de sexo dito convencional, sem conteúdo BDSM) e iniciante.

Se um homem te proíbe de ver amigos e família sem estar na presença dele, ou liga para saber com quem está e o que está fazendo, ele não é um Dominador no BDSM, na verdade, ele não passa de um homem inseguro, controlador e de postura abusiva. Se um homem se desfaz das suas coisas sem te perguntar, isso é violência patrimonial. Se um homem não deixa você transitar em nenhum espaço sem aparecer sorrateiramente (até na sua casa!), controlando o que você bebe e come, ele não está cuidando da sua saúde porque te ama,  está controlando o seu corpo porque assume que você é posse dele.  Se um homem não te deixa sair de casa  “nesse castelo que construiu para te guardar de todo mal”, ele não está te preservando, ele quer que viva somente em função dele sem projetos pessoais ou interação social. Se um parceiro proíbe e restringe seu contato com o mundo exterior ele está te fazendo prisioneira, no máximo concedendo uma liberdade assistida aqui e ali. Romantizar o cárcere emocional, financeiro e psicológico de mulheres é preocupante. Não interessa a justificativa dada por ele, você não precisa ser refém da insegurança alheia, nem tem a obrigação “salvar” um homem controlador. Essa é uma tendência romântica alarmante: Mulheres são ensinadas a aceitar o ciúmes e a possessão de seus parceiros, porque se sentem mães deles (sequer mães, tem a obrigação perpétua de responder pelos atos dos filhos). Mulheres não precisam ser as responsáveis por marmanjos capazes de limpar a própria bunda.

Entre os muitos abusos de Christian Gray, está coagir uma moça completamente alheia ao BDSM em embarcar nas preferências sexuais que não a contemplam. A negociação dos termos BDSM varia de pessoa para pessoa, há mesmo quem elabore contratos, outros preferem estabelecer os parâmetros verbalmente. Isso pode parecer um tanto estranho, mas se as pessoas conseguem pensar pragmaticamente ao casar com quem fica com a residência, o carro, a guarda das crianças e o cachorro, porque não fazer isso em uma união sexual? Não é uma obrigação, apenas um dos modos de operar em um acordo BDSM. Estranho um Dominador experiente como Christian, aparecer de contrato pronto com termos técnicos e pressionar tão insistentemente para que Anastasia o assine. A jovem é completamente baunilha, inexperiente sexualmente, seria no mínimo indelicado abordar qualquer pessoa virgem e sugerir um punho enfiado no cu, quem dirá impor a assinatura de um termo para alguém cuja expectativa de estreitamento afetivo, envolve chocolate e cinema sendo que a outra parte aspira açoitá-la. Como um Dom experiente não é seguro o bastante para ouvir um “Não”?  Como não tem auto-controle o bastante para se abalar com as perguntas (legítimas) de uma moça baunilha? Como proíbe o toque se a moça ainda nem assinou o contrato? Anastasia Steele não é a submissa de Christian Gray, em nenhum momento do primeiro filme ela assina o contrato. Como o tal Dominador experiente nega quando bem entende o uso do acordo, mas exige que a parte da submissa seja completamente cumprida se ela sequer assinou? Como não respeita o tempo e os limites de quem se envolve? Como antes da concordância da parte envolvida já parte para um flogger? Como um Dominador experiente não sabe lidar com uma simples virada de olho sem reagir punitivamente?

Esse filme poderia perfeitamente ser realizado nos anos noventa, nessa época filmes sobre relacionamentos abusivos ganharam destaque, por exemplo, “Dormindo com o Inimigo” e o reprisado muitas vezes na tv, “Medo”. A diferença é que em 50 tons de cinza a violência contra a mulher foi romantizada numa roupagem distorcida de BDSM. O BDSM é estruturado na tríade São, Seguro e Consensual. Assim, as pessoas envolvidas tem de ser adultas com discernimento suficiente para distinguir a encenação BDSM e a violência não consentida. E isso, em sobriedade. Perdi as contas das cenas do personagem bebendo, até mesmo oferecendo uma taça antes dela assinar o contrato. Se na sua cabeça não faz sentido se excitar com BDSM, não force, não é para você. Não há problema nenhum ser baunilha, você não é uma pessoa desinteressante ou menos liberta por gostar de sexo convencional.  Ao que parece, as cenas de 50 tons, envolvem camisinhas e aparatos novos (pela possibilidade de pequenos cortes e sangramentos, o instrumento deve ser de uso exclusivo e devidamente higienizado). Espantosamente, as práticas não foram consensuais, uma vez que o contrato não foi assinado e a moça não teve a segurança do que aconteceria entre eles. Um preceito básico do BDSM menosprezado no filme, é o aftercare, o cuidado após a sessão. Que tipo de dominador experiente não sabe fazer um aftercare, ainda mais com uma iniciante? Enquanto Domme, sei quais palavras excitam meu submisso e quais não devo usar por serem gatilho de experiências traumáticas. Além dessa consideração, tenho de estar atenta aos sinais do corpo para que não fira a integridade física e psicológica, no entanto, pode ser que um dia ele não esteja bem ou mesmo sem esperar, demande parar uma sessão. BDSM é um jogo de mútua atribuição, não apenas a figura dominante tem de ter auto-controle e saber se é hora de interromper, a parte submissa tem de conhecer os próprios sinais e indicar ao dominante que a sessão precisa de uma pausa (dominante não tem bola de cristal).

Anastasia sentiu prazer em um bondage brando, o uso de uma gravata para tornar uma coisa interessante aqui e ali. Ela não se sentiu bem com as cintadas no final. Por mais que uma pessoa baunilha tenha curiosidade em experimentar o BDSM, um dominador não pode ceder aos apelos de quem jura de pé junto que aquenta, ao mesmo passo que oferece todos os sinais de despreparo. Um dominador experiente sabe que até conhecer os limites de alguém, é preciso pegar muito, muito leve. Por mais que se implore, por mais que alguém diga ser corajoso, não se dá um mix de pimenta com quem reclama da ardência de agrião.

Christian Gray não faz Anastasia se sentir segura como um Dominador faria. Ele a deixa perdida e proíbe a moça até de declarar seu amor. Ele termina uma sessão e ao invés de cuidar, a abandona em um quarto sozinha. A proíbe de contar para qualquer pessoa sobre o que estão prestes a concretizar. Sabe-se que praticantes de BDSM criam pseudônimos para lidar com o preconceito, uma vez que a credibilidade profissional e até mesmo moral é posta em questão ao serem descobertos. Como um casal (ou uma casa, quando há um pequeno grupo), lidará com a relação do público e privado das identidades, é acordo mútuo. Assim como muitas pessoas vivem no armário por não serem hétero,  praticantes de BDSM tem de chegar em consenso com seus parceiros sobre quem será capaz de não os jogar no ostracismo, se assumirem a prática não baunilha. Em 50 tons de cinza, o clichê do relacionamento abusivo como sinônimo do amor possessivo e monogâmico, uniu-se ao que os baunilhas pensam ser práticas BDSM. É como um homem hétero com pouca experiência sexual descrevendo sexo lésbico. Passar gelo no corpo é tão baunilha quanto cobri-se de chantilly e morangos. Até as reações são cinematográficas demais, ao variar o lugar da estimulação por exemplo, o corpo dela (inexperiente) não se antecede em nenhum momento, não hesita, não tem contrações involuntárias. A única marca visível durante o filme é um erro de edição, antecede o primeiro contato da bunda com um chicote de hipismo (riding crop). Christian afirma que uma das vantagens em ser submisso é abrir mão do controle, não ter obrigações e responsabilidades, como afirmei algumas linhas acima, o submisso também tem responsabilidade e auto-controle durante a sessão. Se você ficou curiosa para saber mais sobre o BDSM e deseja experimentar, leia bastante sobre o assunto, procure referências da pessoa no meio fetichista, faça todas as perguntas, todas mesmo. Você não precisa forçar nenhum comportamento para se moldar ao gosto alheio. Você não precisa chamar fulano que nem conhece de “Senhor” porque ele te diz que é Mestre há não sei quantos anos. Se você tem vontade apenas de ser amarrada mas não de ser amordaçada, se você tem vontade de ser chamada de determinados nomes mas não de outros, se você quer experimentar uma dinâmica de dominação mas sem dor, cada um desses limites deve ser respeitado. É você que definirá se e como o BDSM será condizente com seu desejo, é o seu tempo, é o seu espaço, é o seu gozo. Para ser Domme não é preciso ser carrancuda, para ser submissa não precisa ser introvertida. BDSM é indissociável do livre-arbítrio nos dois lados do chicote.

 

AVATAR* Divina é uma biscate oblíqua e dissimulada, conversa sobre feminismo com as fetichistas e de fetiche com as feministas. É Domme,  sadista e aprecia homens amordaçados.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 ideias sobre “BDSM de 50 tons é uma (perturbadora) invenção baunilha

  1. Excelente texto!
    E o pior é que 50 Tons, livros e filme, gerou uma grande onda dessa absurda dessa romantização do abuso contra a mulher (em outros livros e até fanfics que surgiram às dúzias), já que infelizmente a maioria de nós não sabe a diferença (para mim e para você muito clara, cristalina) entre cuidado e opressão, entre amor e puro sentimento de posse sobre o outro. Não enxergam quando um homem é controlador e abusivo e chamam isso de paixão. E sim, é tudo culpa da educação deturpada que recebemos e que tira de muitas de nós, mais frágeis, o respeito próprio.

  2. Sou uma leitora assídua do biscate, e sempre amo os textos, mas pela primeira vez venho descordar. Li a trilogia dos “50 tons dr cinza” e adorei, não só por ser erótico mas também por ser um romance envolvente, não sou adepta a práticas BDSM , sou uma “baunilha”, e o que mais me fascinou foi a historia por completo, os traumas e motivos das preferências de “Grey”, e se vcs leram a história perceberam assim como eu que ele por ser mito apaixonado por Anastácia se permitiu viver um romance e se tornou um praticante baunilha também, no amor deles há lugar para sexo de todos os tipos, mas nunca sem consentimento de ambos, Grey PEDE á Anastascia para assinar nunca á coigi, e ela nunca fez nada á força. No resumo de tudo, o romance deles resultou num equilíbrio. Não vejo por que tanta revolta contra o livro/filme se no mundo de tudo há e não é essa obra que está introduzindo isso na sociedade. Não se pode falar muito para não se contradizer, se o BDSM deles foge do convencional sendo bom pra eles é o que vale, cono VC mesmo disse ” é você que definirá se e como o BDSM será condizente com seu desejo,é o seu tempo, é o seu espaço, é o seu gozo.” O que eu acho válido é espalhar para todas as mulheres que elas sejam senhoras do seu desejo, honestas consigo e com o parceiro, que antes de quaisquer praticas conversar e esclarecer seus limites e não criar nas pessoas aversão ao livro/filme. Só acho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *