Aborto e creches públicas: duas pontas

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#8demarço #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

As duas pontas essenciais, quando se trata dos direitos das mulheres. Uma ponta, que a gente já discutiu tanto aqui, é o direito à interrupção voluntária da gravidez. O direito da mulher de escolher não continuar grávida. Fundamental, quando se fala de direitos iguais. De direitos humanos. De direito ao próprio corpo. De direito ao sexo. E não adianta vir com essa conversa de que “foi irresponsável, agora paga”: como todo mundo sabe (ou deveria saber), camisinhas furam, pílulas falham, DIU às vezes são ineficientes. A pessoa pode ser absolutamente responsável, e, mesmo assim, engravidar. No corpo dela. Na vida dela. Se é para ser consequente com o direito das mulheres de fazer sexo, é necessário e inevitável que o aborto seja descriminalizado e legalizado. Aceito que existam outras opiniões, mas então digam logo: mulher não tem direito de fazer sexo  como os homens. Já que pode engravidar.

A outra ponta, inevitavelmente, é o direito à creche pública e à educação infantil integral e de qualidade. A creche, a pré-escola, permitem às mulheres trabalhar fora, sabendo que seus filhos estão bem e cuidados. A Constituição de 88 já reconhecia isso, e garantia o direito à educação infantil para crianças até 5 anos. No entanto, o quadro ainda está muito longe de ser satisfatório.
O cuidado com as crianças ainda recai principalmente sobre a mãe, e isso é outra discussão necessária, já que se essa responsabilidade for entendida como sendo dos pais em conjunto, existe algum avanço possível. Mas o fato básico é que a inexistência de alternativas para o cuidado com as crianças pequenas penaliza, sobretudo, as mulheres da classe trabalhadora. As soluções são  em geral familiares: uma avó, um parente, um vizinho, o filho mais velho – às vezes nem tão mais velho assim. Gambiarras para suprir aquilo que o Estado não dá conta de garantir. Responsabilização e culpabilização, mais uma vez, das mulheres. Que deveriam ficar em casa, que deveriam ter um trabalho em tempo parcial…. que deveriam. E, enquanto isso, nada de independência, de autonomia, de igualdade.

Para as mulheres de classes mais abastadas, existe, além da creche privada,  no Brasil – e isso é um sintoma de atraso tão grande, do ponto de vista da cidadania  – a opção de ter uma babá. Ou várias. Mulheres que tantas vezes deixam seus filhos para cuidar dos filhos dos outros e assim garantir a subsistência. Desigualdades. Injustiças. (não, eu não estou dizendo que você trata mal a babá dos seus filhos. Apenas sonho com um mundo em que não existam mais babás).

 Duas pontas. Que parecem tão distantes, e no entanto se conectam no mesmo eixo, que é o direito das mulheres de serem iguais. De terem oportunidades e desafios iguais. Chances iguais. Trajetórias iguais. Dificuldades iguais. No direito que parece tão básico –  e está tão longe de sê-lo – de ter o mesmo direito que os homens.

 

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Uma ideia sobre “Aborto e creches públicas: duas pontas

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