As guerreiras cansadas do 8 de março

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Oito de março e lá vamos nós para a enxurrada de ações e “homenagens” a esse ser místico e indecifrável: a mulher.

Quando não se exalta a “feminilidade”, a delicadeza, o encanto, o “toque especial” (esse último eu fico imaginando o menino do dedo verde com a roupa da fada madrinha da Cinderela, me deixa) surgem as declarações sobre a “mulher guerreira”.

Sim, todas e todos já elogiamos alguma mulher assim na vida, principalmente quando ela está passando por uma situação complicada (algo comum em nosso dia a dia, né?)

“Força, você é guerreira, vai dar conta!”

“Orgulho de você, mulher guerreira!”

“É isso aí, vá em frente, guerreira!”

Eu mesma sempre lembrei de minha mãe como uma grande guerreira. Eu mesma já me vi como uma grande guerreira. E quer saber?

CANSEI.

Não quero ser guerreira. Por sinal, odeio guerra. Eu quero paz, se possível com direito ao amor, ao sexo, ao rock (mentira, quero brega).

Lutamos diariamente contra a violência, a tirania, até contra a falta de empatia de outras mulheres (Olar.sororidade.como.vai.você). Não lutamos porque queremos. Lutamos porque não temos outra opção!

Quantos dias sentimos vontade de não sair de casa para não termos o desprazer de ter que conviver com o machismo nosso de cada dia no trabalho, na padaria, na escola ou na casa da sua mãe?

Quantas noites deitamos em nossas camas com os músculos tensionados pelo simples fato de termos andado nas ruas e passado por diversas situações vexatórias e constrangedoras?

Nosso país possui dados alarmantes relacionados à violência contra as mulheres. O mercado de trabalho nos desvaloriza a todo momento, mesmo que sejamos quase 40% das responsáveis por um lar.

Os postos mais valorizados do mercado de trabalho ainda estão concentrados na população masculina e as barreiras de entrada em determinadas profissões parecem intransponíveis para muitas, desde a infância.

Nem falei da desigualdade salarial. Dxs empresárixs que não querem contratar mulher porque ela pode engravidar. Da imensa maioria das mulheres no trabalho informal ou nos serviços domésticos.

Nesse 8 de março,  não quero parabéns, seja pela minha fragilidade ou pela minha força.

Não quero ser homenageada pelas não-opções da minha vida.

Quero ser eu, Adriana Torres, sem qualquer rótulo, padrão ou nomeações.

Será que é pedir muito?

 adriana-torresAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

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4 ideias sobre “As guerreiras cansadas do 8 de março

  1. Dri, ♥.
    Estava pensando nisso ontem mesmo, enquanto me impunha a necessidade (de novo) de escrever no 8 de março. Vou escrever porra nenhuma, não estou dando conta nem da minha existência, quanto mais abarcar o mundo com as pernas… (ôpa).
    Vou continuar sendo só eu nesses dias.
    #APAPORRA

  2. Pingback: Por um Dia das Mulheres mais feminista | Acreando por Aí

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