Nem Mais Nem Menos

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Nós passamos essa quinzena aproveitando o mote do Dia Internacional da Mulher escrevendo com recortes, olhares e abordagens variadas. E, acho, variadas é um termo importante. Penso que ver o Outro, respeitar sua alteridade e conviver com ele é um bom caminho pra uma sociedade com menos dor.

Na escrita (e na leitura, né, por que não?), com algum esforço, vamos sendo (e não me refiro especificamente, agora, a esse blog, mas as pessoas que militam à esquerda e nas frentes de luta de minorias) um tantinho mais inclusivos. Abandonamos ou tentamos abandonar, as generalizações que tornam invisíveis as pessoas que não correspondem ao padrão que ocupa nosso imaginário. Já não escrevemos: “as mulheres” porque sabemos que esse termo não contempla a variedade de pessoas que assim se identificam. “As mulheres” costuma acolher, de maneira geral, brancas, jovens, cisgêneras, magras, sem deficiência. Não somos todas assim, sabemos e escrevemos: mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência, mulheres pobres.

mulheres

Eita, Luciana, mas pra que tanta picuinha? O tempo que tu leva só pra escrever esse tanto de mulher isso e mulher aquilo já dava pra estar tratando dos temas realmente importantes. Então, pra mim e pra várias mulheres que não se vêem nem são vistas no espectro “as mulheres”, visibilidade, escuta, representação, reconhecimento são realmente importantes. De maneira geral, aliás, as pessoas, as mulheres, que menos se questionam sobre a necessidade de sim, nomear as diferenças, são aquelas que menos diferenças apresentam em relação ao padrão. Penso eu que, talvez, seja porque reconhecer (e a seguir, tentar abrir mão de) nossos  privilégios é difícil, mesmo (ou especialmente?) para quem tem poucos. Por isso muitas vezes, quando se aborda questões específicas, ora de mulheres negras, ora de mulheres com deficiência, muitas vezes ouvimos que é muito drama, exigência demais, demanda de perfeccionismo, etc. Porque não nos sentimos implicados na desumanização que promovemos, como sociedade, quando naturalizamos discursos e comportamentos excludentes, muitas vezes por causa de uma causa principal, necessidades prioritárias, um bem maior (e, como eu já disse, estou fora de Bem Maior).

E digo que não conseguiremos sair dessa espiral de exclusão sem escuta. Porque mesmo as pessoas que tentamos e escrevemos e talz, pisamos na bola. Porque, repito sempre, não é que sejamos (de forma estanque, cristalizada) transfóbicas, capacitistas, racistas, machistas, gordofóbicas, etc. É que nos construímos sujeitos em relação e a sociedade é estruturada de forma racista, capacitista, machista, gordofóbica, transfóbica, etc. E nós internalizamos e reproduzimos. E isso naturaliza e/ou invisibiliza uma série de dores.

Esses dias uma mulher contou como fez para escapar de uma situação de desconforto originada no comportamento machista: o assédio na rua. Narrou  que para deixar de ser assediada simulou uma expressão facial que ela chamou inicialmente de careta e, a seguir, disse que parecia que ela tinha uma doença ou uma deformidade. E aí, segundo a narrativa, os homens passaram a desviar o olhar e ela não se sentiu mais intimidada. Se você não encontrou o erro, se não sentiu o travo na boca, é disso que estou falando: de como somos forjados pra ignorar as dores dos que nos são diferentes. A mulher se sentiu menos ameaçada, menos assediada. Que bom pra ela. Mas não é bom que ela conte isso como uma vitória e, principalmente, acho eu, não é nada bom que pessoas militantes, grupos feministas aplaudam e disseminem o texto e a “estratégia” como válidos. Esse discurso é ofensivo para mulheres com deficiência de várias formas que nem sei dizer (e, aqui, não é um recurso de linguagem, não sei mesmo, reflito e imagino algumas nuances, mas quero mais é ouvir, ler, saber sobre o que elas pensam, por isso perguntei, por isso estou procurando mais). Uma delas é invisibilizar que assédio e suas gradações de violência, incluindo o estupro, não são situações apenas relacionadas à atratividade mas também – e muitas vezes preferencialmente – à vulnerabilidade. Este tipo de discurso esquece que pessoas com deficiência são vítimas também. Faz um eco doloroso, inclusive, com a piada do estupro de mulher feia é praticamente um favor. Não é. Outra coisa que me ocorre é que o pareamento “simulei uma deficiência = não sou mais assediada porque me tornei repulsiva ao olhar” é violento porque nega às pessoas com deficiência o potencial de causador de desejo. Criticar esses discursos não é desqualificar as pessoas que eventualmente os reproduzem, mas questionar porque aceitamos essas distinções, porque não nos inquietamos, porque não amarga na boca. Não estou querendo minimizar o desconforto da mulher que narra sua vivência de assédio, mas questionar de que lado a corda está rebentando.

A nossa sociedade e seus valores estruturantes nos ensinam que existem pessoas que são mais pessoas que outras. Existem pessoas e corpos que são mais. Mais adequados. Mais ajustados. Mais aceitáveis. Mais desejáveis. Mais amáveis. Essas pessoas podem mais. Merecem mais. O quê? Olhar. Proteção. Segurança. Apoio. Desejo. Narrativas complexas. Essa sociedade que faz uma cadeira estreita nos aviões e as pessoas, as mulheres gordas que emagreçam. Essa sociedade que diz “se vista como alguém da sua idade” e as mulheres velhas que se virem pra entender que seus corpos não merecem mais ser vistos. Essa sociedade que patologiza as pessoas transgênero e as mulheres trans que se escondam, se mascarem, se disfarcem para não serem mortas. Essa sociedade que questiona a legitimidade da autonomia e escolha da mulher pobre (olha aí, ganha o bolsa família pra comprar calça jeans de marca). Essa sociedade que dissemina “cabelo duro”, “cabelo ruim”, “cabelo de Bombril” e as mulheres negras que se virem para resgatar sua auto-estima e para protegerem suas filhas desse ataque constante e insidioso.  É essa sociedade, em que estamos e reproduzimos, que se estrutura para marginalizar e, preferencialmente, apagar, as mulheres com deficiência. Elas são menos, aprendemos. Menos potentes (e aí cada história de “superação” nos leva lágrimas aos olhos – porque estava subentendido que não era pra elas conseguirem, claro, sem essa suposição a comoção não se daria). Menos adequadas (aos empregos, ao lazer, ao olhar). Menos ajustadas (como se a sociedade fosse um dado da natureza, como se a escolha de fazer escadas e não rampas, por exemplo, não fosse uma construção social, política e cultural). Menos aptos ao desejo (além da suposição de que as pessoas com deficiência são “repulsivas” como na narrativa mencionada, também temos os discursos que infantilizam ou des-sexualizam suas demandas). Menos amáveis (e pululam suposições que “fulano só pode estar com ela por pena” ouveja essa mulher tão jovem sacrificando-se e casando com o namorado que teve aquele acidente horrível).

Se eu tenho uma utopia é essa: que as pessoas não sejam mais nem menos. Que as mulheres não sejam mais nem menos. Que sejam vistas, ouvidas, desejadas, amadas, acolhidas em sua diferença e especificidade. Que nos libertemos do “tem que” e passemos a usar mais o verbo poder como opção e potência. Que o tempo e o espaço que passamos escrevendo, descrevendo, incluindo mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência seja um reflexo da nossa escuta e um aspecto consistente da nossa militância.

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Eu estava escrevendo esse texto e vi a tradução de um discurso da Shonda Rhimes que me comoveu e que trata de assuntos relevantes de uma forma com o qual me identifico. Diz ela, entre tantas lindezas:

“Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo. Sua tribo pode ser qualquer tipo de pessoa, qualquer um com quem você se identifique, qualquer um que sinta como você, que sinta como familiar, que sinta como verdade. Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo, ver sua gente, alguém como você lá fora, existindo. Para que você saiba no seu dia mais escuro que quando você corre (CORRE metafórica ou fisicamente) há um lugar, há alguém para quem correr. Sua tribo está esperando por você.

Você não está só.

O objetivo é que todo mundo possa ligar a TV e ver alguém que se pareça consigo e que ama da mesma forma. E, igualmente importante, todo mundo deveria poder ligar a TV e ver alguém que não se parece consigo e que não ama da mesma forma. Porque assim, talvez, essas pessoas aprenderão com essas personagens.

Assim, talvez, não irão isolá-las.

Marginalizá-las.

Apagá-las.

Talvez elas irão até mesmo se reconhecer nessas pessoas.

Talvez elas até aprendam a amá-las.”

Tenho cá pra mim que esse é um dos caminhos: ver mais, ouvir mais, saber mais. Amar mais.

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